Arquivo de outubro de 2005

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Saudável exercício da inveja

Aqui vão dois posts que eu gostaria de ter escrito. Primeiro, este do ótimo blogue lusitano Voz do Deserto (e peço licença ao Tiago Cavaco para a citação, já que não consegui lincar diretamente o seu texto de 20/10, “The case for portuguese”): “Não se trata de descobrir virtudes em cantar em português. Mas de encontrar firmes defeitos em cantar em inglês. No inglês a pessoa não pronunciando nada está mais perto de pronunciar alguma coisa. É um idioma em que o zero e o 100 andam perto. Enrola-se a língua e sai uma frase, espirra-se e disse-se um provérbio. No Português a boca trabalha toda. As sílabas existem e a fonética é vaidosa. Não dá para cantar com bolachas no bucho. Uma canção de amor em inglês é uma rotina. Em português é um statement. Envolve alguma coragem. Pelo efeito acústico de ‘amo-te’ ser pesado é que os portugueses poupam declarações apaixonadas. Fazem bem. Esbanjar ‘love’ pelo mundo é coisa de gente sem peso existencial. Existential weight.”

O outro é esta sensacional fotonovela do Manobra, 1979 -que incluirei em breve na lista de linques- com o desafio ao galo Foucault versus Chomsky.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Ninguém entende um modess

Continuo com minhas previsões musicais à moda de Leonard Cohen. Depois do revival mod entre os descoladinhos de São Paulo -pois é, aquela música que seu tio barrigudo curte, De Ru circa 1965 e similares, voltou a ser in-, teremos uma onda modess ou menopower. Regulador Xavier será a all-girl band da moda. Apresentações serão agendadas conforme o ciclo menstrual das meninas, que jogarão seus tampões na platéia ao final dos shows. Também darão porrada no primeiro crítico que chamar o som delas de “seminal” (“seminal é o cacete!”). Pelo menos isso vai ser divertido.

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Repost: grandes momentos da sétima arte

De quem é o mundo? De Deus? Ou do Diabo? Nada disso -o mundo é das crianças. Pena que, depois que cresce, vira tudo débil mental.

(Resumo da sabedoria de José Mojica Marins, the one and only Coffin Joe. Eventuais correções da citação serão -praticameeente- bem-vindas.)

terça-feira, 25 de outubro de 2005

O cinema brasileiro precisa de BIFA

Leio no blogue do Sérgio Dávila que o novo filme do Fernando Meirelles, “O Putanheiro Fiel” ou algo assim, obteve o maior número de indicações para o British Independent Film Awards deste ano. Puxa, como ninguém pensou nisso antes? É só substituir “British” por “Bananão’s”, com aquele apóstrofo especialmente chique: mantendo a sigla -BIFA-, obteremos o prêmio ideal para o cinema brasileiro. Que bonita seria, na noite de entrega, a generosa distribuição de BIFAS a cineastas, atores e atrizes, incluindo uma homenagem póstuma a Glauber Rocha (BIFA especial, pelo conjunto da obra). E que rara satisfação ver dinheiro público ser bem empregado. Amigos, BIFA -na caixa-alta mais alta possível- é a salvação da indústria cinematográfica botocúndica. Chega desse papo de Palma de Ouro -que, como o nome diz, premia filmes feitos por e para punheteiros.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Pequena antologia goiabal

François Truffaut (1932-1984)

“Tudo começou com um tombo na água.

Durante o inverno de 1955, Alfred Hitchcock veio trabalhar em Joinville, no estúdio Saint-Maurice, na pós-sincronização de Ladrão de Casaca, cujas externas tinha filmado na Côte d’Azur. Meu amigo Claude Chabrol e eu resolvemos ir entrevistá-lo para os Cahiers du Cinéma. Tínhamos pedido emprestado um gravador para registrar a entrevista, que gostaríamos que fosse longa, precisa e fiel.

Estava bastante escuro naquele auditório onde Hitchcock trabalhava, enquanto na tela desfilava sem parar, como que rolando, uma cena curta do filme que mostrava Cary Grant e Brigitte Auber pilotando um barco a motor. No escuro, Chabrol e eu nos apresentamos a Alfred Hitchcock, que nos pede que o esperemos no bar do estúdio, do outro lado do pátio. Saímos ofuscados pela luz do dia e, comentando com a empolgação de verdadeiros fanáticos por cinema as imagens hitchcockianas que víramos em primeira mão, dirigimo-nos, sempre em frente, para o bar que ficava logo ali, a quinze metros. Sem perceber, nós dois pulamos no mesmo passo a borda estreita de um laguinho congelado, da mesma cor cinza do asfalto do pátio. O gelo quebrou imediatamente e fomos parar no fundo, com água até o peito, aparvalhados. Pergunto a Chabrol: ‘E o gravador?’. Ele ergue devagar o braço esquerdo e tira da água o aparelho, pingando.

Como num filme de Hitchcock, era uma situação sem saída: naquele laguinho inclinado, em declive muito suave, era impossível alcançarmos a beira sem escorregar de novo. Foi preciso a mão prestativa de um passante para nos tirar dali. Finalmente saímos, e uma roupeira, na certa com pena de nós, levou-nos para um camarim onde pudéssemos nos despir e secar as roupas. No caminho, disse-nos: ‘Puxa! Meus filhos, coitados! Vocês são figurantes de Rififi chez les Hommes?’ ‘Não, senhora, somos jornalistas.’ ‘Então, nesse caso, não posso cuidar de vocês!’

Portanto, foi tiritando dentro de nossas roupas encharcadas que minutos depois nos apresentamos diante de Alfred Hitchcock. Ele olhou para nós sem fazer comentários sobre nosso estado e propôs um novo encontro para aquela noite, no hotel Plaza Athénée. No ano seguinte, quando voltou a Paris, nos identificou de imediato, Chabrol e eu, no meio de um grupo de jornalistas parisienses, e nos disse: ‘Cavalheiros, penso em vocês toda vez que vejo pedras de gelo chocando-se num copo de uísque’.

Anos mais tarde eu seria informado de que Alfred Hitchcock havia floreado o incidente, enriquecendo-o com um final bem a seu jeito. Na ‘versão Hitchcock’, tal como ele a contava aos amigos de Hollywood, quando nos apresentamos depois do nosso tombo no laguinho Chabrol estava vestido de padre e eu de policial!”

(Da introdução ao excelente livro “Hitchcock/Truffaut – Entrevistas”, 1966, tradução de Rosa Freire d’Aguiar para a Companhia das Letras. Observem que o relato do cineasta francês é quase o roteiro de um filme. Notem, ainda, como jornalistas são tratados pior que cachorros. Merecem, claro.)

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Esquetes que eu gostaria de ter escrito

Algum programa dos Trapalhões perdido na década de 80. Uma plaquinha de madeira diz que se trata de uma delegacia. Sentado atrás de uma mesa, Renato Aragão -que já foi um cara engraçado, acreditem- faz a cara-de-saco-cheio mais eloqüente do mundo. O telefone toca. “Arô! [Pausa.] O quê, minha senhora? Tem ladrão aí na sua casa? [Outra pausa.] E eu com isso? Aqui tem mais de 20 e eu não fico ligando pra senhora! [Bate o telefone.]” E essa gente colonizada vem falar de montipáitom. Pois sim.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Anotações para um roteiro de cinema

A história de um cidadão determinado a fazer valer seus direitos que decide processar 8.527 botecos em todo o país por constatar que nenhum deles vendia um X-tudo que contivesse, conforme inequivocamente anunciado no nome do sanduíche, tudo. As enormes despesas com as viagens e as custas dos processos levam nosso herói à falência. Sua obsessão pelo X-tudo impede a pipa de subir e faz a mulher abandoná-lo. Definitivamente enlouquecido, tenta fabricar o X-tudo perfeito: vai preso após fazer picadinho do carro, da casa e da mãe de 87 anos. Na cadeia, pede um hambúrguer sem pepino, ao qual acrescenta cianureto para “dar um gostinho” antes de se matar. Séquiço, violência e inúmeros artigos do Código de Defesa do Consumidor. Parece bom. Ou não -talvez falte queijo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Mora na filosofia…

Mas vai sair da kitchenette porque não agüenta mais o bigodudo que passa a noite inteira chorando, abraçado a um cavalo, no quarto ao lado. O outro vizinho, um francês pequeno e vesgo, não toma banho nem troca a fralda geriátrica há no mínimo oito meses; sentem-se os eflúvios mesmo através da parede. Pensou em se mudar para a psicologia, mas lembrou que, cercado por Reich e figuras semelhantes, teria de vestir cinco calças jeans e dormir com a bunda bem encostada na parede. Não-bom. Morar na sociologia também não parecia atraente. Decidiu continuar desempregado e parar de comer (“eu vou lhe dar a decisão/ botei na balança, você não pesou…“) até se resumir a uma estatística. Para morar na economia, claro.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Worth every single cent

É o que tenho a dizer sobre aquele único item da wish list goiabal, que já está em minhas mãos. Fantástico. Partilho com vocês um pouco dessa beleza: cliquem aqui para ouvir Thelonious Monk (piano), John Coltrane (sax tenor), Ahmed Abdul-Malik (baixo) e Shadow Wilson (bateria) em “Monk’s Mood”, gravada ao vivo no Carnegie Hall, em 29 de novembro de 1957. A promoção é válida por uma semana ou 25 downloads. Enjoy.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Novíssima carta do chefe Seattle

Quantos desastres ecológicos teriam sido evitados se alguém tivesse prestado atenção na nova carta -enviada por Sedex- do chefe Seattle. Quem abriu o pacote encontrou apenas a embalagem de CD do “Nevermind”, sem o disco, e um bilhete com uma instrução simples: “Enterrem o Djavan na curva do rio“. Mas o homem branco não ouviu.