Arquivo de janeiro de 2006

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Oferenda musical

Para você, moça, neste dia: “The Look of Love”, de Bacharach & David, na gravação clássica da Dusty Springfield. E muita felicidade, hoje e sempre. (Todos vocês que não são a moça também podem clicar aí para ouvir.)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

A humanidade sempre me surpreende

Negativamente, é claro. Não sei se vocês sabem, mas só me dedico a criar comunidades no Orkut quando o assunto de que elas tratam é urgente e relevante. Assim é que, depois de fundar a “Adoradores da Grande Abóbora” e a “Cauby Peixoto Is God” -esta, modéstia à parte, a primeira e maior comunidade caubística orkutiana, com mais de 1.300 seres desocupados e de gosto duvidoso-, decidi abrir a “Naturismo no Chuveiro”, em defesa do hábito tão salutar quanto libertário de tomar banho pelado. Mandei convites aos meus 220 amigos orkuteiros, os quais eu gostava de imaginar como pessoas de mente aberta, livres de preconceitos e tal.

Sabem quantas pessoas aderiram até agora? Treze, preclaros leitores, apenas treze -o que, se a calculadora do Windows não me engana, corresponde a irrisórios 5,9% da amostra. Isso só pode significar duas coisas: a) as pessoas ainda vão para o chuveiro de anágua, camisola, cueca, ceroula ou escafandro, o que demonstra que o conservadorismo vitoriano é muitíssimo mais arraigado do que se imagina; b) elas simplesmente não tomam banho, em nenhuma hipótese -nem sob o sol de derreter catedrais característico do verão na Botocúndia. Vocês, hein? Francamente. (No fundo da platéia, alguém grita: “Ei, mas essa ‘amostra’ não tem valor estatístico!”. No púlpito, com a finesse e a originalidade que Deus me deu, levanto a tabuleta onde escrevi uma bonita citação que achei no Gúgol: “Valor estatístico de cu é rola. William Shakespeare”.)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Temos vagas para arúspices

É difícil que tenha havido na história deste planeta redondo porém chato gente mais supersticiosa que os romanos. Tudo era augúrio: se no solstício de inverno uma pomba cagasse na encosta oeste do monte Aventino entre o meio-dia e as três da tarde, os patrícios sabiam que não deveriam sair de casa, leis deixavam de ser promulgadas, os debates no Senado eram suspensos etc. Seres evoluídos, esclarecidos e muderrrnos como nós, naturalmente, tendem a rir dessas coisas. Está errado -no fundo, é uma questão semiótica, de saber ler os signos. Tive certeza disso na semana retrasada, em visita ao buraco que é o centro de São Paulo. A bichinha cantando Maria Bethânia, em altíssimos brados, diante daquele prédio (“ABEEEELHA RAIIIINHA, FAAAAZ DE MIIIIM UM INSTRUMENTO DO TEU PRAZEEER”) era o sinal mais inequívoco possível de que o resto do meu dia seria uma merda: a pomba produziu um Everest de bosta na face oeste do Aventino e eu não notei. Pode rir da minha cara, Suetônio.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Odorico Paraguaçu às avessas

“El flamante presidente de Bolivia, Evo Morales, prometió ‘un gobierno sin muertos’”, diz a France Presse. Rendo-me às evidências e admito que o cara é fodão mesmo: só tendo muita bala na agulha para proibir o povo de morrer durante seu mandato. Imagino que, em breve, ele desaproprie os cemitérios para a reforma agrária. Moleza. Basta mandar ressuscitar aqueles vagabundos que ficam lá se fingindo de muertos o dia inteiro.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Método instantâneo para perder amigos

Item 1. Sua amiga vai ver um filme-de-triângulo-amoroso e sai dizendo que é impressionante como os homens não têm “estrutura” para agüentar uma relação desse tipo. Item 2. Você talvez seja tentado a contestá-la de modo simpático, com algo do tipo “se você tivesse ido ver ‘Jules e Jim’, diria exatamente o contrário”. Resista: simpatia é coisa de mariquinha. Seja azedo, faça uso da sua bílis. Item 3. Responda recorrendo à ironia fácil: “É mesmo, o cinema ensina muita coisa. Eu, por exemplo, aprendi que os ETs bonzinhos têm uma luzinha no dedo e os malvados se alojam na sua barriga e explodem suas tripas”. Item 4. Se você for suficientemente pedante, meta o velho Ari na conversa e faça alusões, mais ou menos sutis, à infantilidade de quem não distingue realidade de representação. Item 5. Se nem isso funcionou, apele para o golpe baixo: “Fosse uma gostosa como a do filme, conheço um monte de caras que topariam o esquema. Não vá me dizer que você está se usando como parâmetro! Não tem espelho na sua casa?”. Item 6. Meio segundo após emitir a última frase, abaixe a cabeça para se esquivar do tapa na cara. (Antes que me perguntem: não, nunca testei esse método. Mas não há hipótese de ele não funcionar.)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Alegrias do povo

Façamos uma ola para os dois novos integrantes do Apostos: Los Olvidados e Nariz Gelado. Quem conhece já sabe que ambos batem um bolão -e quem ainda não conhece vai concordar depois de lê-los. Vão lá.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Looping peripatético

“Você já parou para pensar nas metáforas com prazo de validade vencido?” “Como assim?” “Por exemplo: dizer que Fulano, ou Fulana, é tão repetitivo e chato quanto um disco riscado.” “É verdade. Gente que cresceu ouvindo CDs e MP3 jamais passou pela experiência do disco riscado. Conhece, no máximo, de ouvir dizer.” “Exato. Mas note que, apesar de antiga, decrépita, quase-extinta etc., é uma analogia relativamente recente. No século 19, ninguém entenderia se você falasse em disco riscado.” “Isso lembra o ‘eterno retorno’ do bigodudo malucão. Se houvesse essa tecnologia na época, talvez ele tivesse escrito sobre um disco riscado que você é obrigado a ouvir eternamente, sempre no mesmo pedaço chato.” “É por aí mesmo. Acho que no século 22 ninguém mais vai fazer idéia do que era o fenômeno ‘disco riscado’.” “Mas a idéia de repetição e chatice continuará pelos séculos dos séculos”. “Sem dúvida. Todo aquele papo do Eclesiastes, ‘nada de novo sob o sol’ etc., já era uma versão cósmica -e avant la lettre- do disco riscado.” “Aliás, você percebeu quantas vezes a gente já repetiu a expressão ‘disco riscado’?” “Caramba, como somos repetitivos.” “E chatos. E nossa conversa está girando em falso.” “Vamos voltar ao começo? Como a gente veio parar aqui? Você se lembra?” “Parando para pensar, acho.”

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

O goleiro-linha e o futebol de vanguarda

No final de 2005, assisti àquele DVD da Fifa que conta a história das Copas. Boa diversão para quem gosta de futebór, embora puxe um pouquinho a brasa para os bloody Britons e seus vizinhos (as zebras mostradas são, na maioria, seleções das ilhas, e aquela defesa do Banks na cabeçada do Pelé -Brasil 1 x 0 Inglaterra, na Copa de 70- é exibida várias vezes. No segundo caso, admito que é merecido). Só uma coisa me intrigou: num dos capítulos, great midfielders (ou algo assim), são citados tanto Garrincha quanto Passarella. Bem, os comentaristas de futebór, essas sumidades, me ensinaram que ponta-direita era uma coisa, quarto-zagueiro era outra e os dois, normalmente, não tinham nada a ver com o meio-campo (midfield).

Hoje vejo que os colegas-de-trabalho do Casagrande me enganaram. A Fifa comprova: midfielder é todo mundo que fica no meio do campo, entre um gol e outro, o que seguramente inclui o juiz. É o mesmíssimo esquema tático dos moleques do meu tempo, em que tudo se resumia a goleiro e linha. Qualquer definição mais detalhada -ponta, lateral etc.- era frescura. Vários timinhos em que joguei adotavam até o goleiro-linha, muitíssimo antes de Chilavert, Rogério Ceni e Higuita, o homem-pebolim. Éramos vanguarda e não sabíamos. (Depois neguinho vem falar de Cruyff, Rinus Michels, carrossel holandês e não sei que mais. Povinho deslumbrado.)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Audiobizarrices

Leitores hipócritas, meus semelhantes, meus irmãos, tenho de admitir que esse eMule é um barato. Ainda não consegui achar aquela versão de “Wind of Change” com solinho de assobio do Gorbatchov, mas tenho certeza de que ela está no fundo do HD de algum internauta romeno ou estoniano e eu conseguirei baixá-la assim que o cara ligar seu computador. Aliás, pelo menos para mim, o melhor do programa é a possibilidade de baixar bizarrices avulsas, de preferência aquelas que você jamais compraria em vinil ou cedê. Mal o ano começou e, graças à mulinha eletrônica, já encontrei a coisa mais auditivamente esquisita desde “Ave Maria no Morro”, em espanhol, com os Scorpions: Scott Walker -crooner anglo-americano que influenciou David Bowie e Marc Almond e provável melhor intérprete de Jacques Brel em inglês- cantando uma música de Baiano Meloso. É sério. Em “Maria Bethânia”, que está num disco (ainda mais) obscuro de Walker -”Any Day Now”, de 1973-, ele imita até o “nhão-nhão-nhão-nhão” do gênio de Santo Amaro da Purificação, embora pronuncie o “th” de “Bethânia” como em thick. Quer ouvir para crer? Então clique aqui.

Atualização: atendendo a pedido do meu amigo César Miranda, eis aqui “Ave Maria no Morro”, de Herivelto Martins -na versão em espanhol e com os Scorpions, gravada ao vivo na Cidade do México. It can’t get weirder.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

As heads is tails, just call me Zedirceu

Impressionante como não há estaca de madeira que dê jeito no Vampiro de Passa Quatro. O cara é imortal mesmo -pelo menos na mídia. É “almoço de desagravo” no Rio, reveião com champã e Paul Rabbit no sul da França, passagem de ano na gruta de uma tal Lurdes (epa, opa). Estou esperando a hora em que ele vai aparecer de cartola e collant preto, combinando com a pança proeminente, cantando “please, allow me to introduce myself, I’m a man of wealth and taste“. Será a senha para o ataque dos Hell’s Angels.