De vez em quando, a publicidade brasileira é uma coisa muito feena. Aqui em São Paulo, propagandas do laboratório farmacêutico que produz o Viagra mostram casais jovens e felizes, com aquela cara de estamos-de-bem-com-a-vida característica das embalagens do leite Molico, brincando com uma grande bola azul. Sutil e chique em excesso, eu diria. Levando em conta o público-alvo do Bananão, seria mais eficaz, por exemplo, retratar marido e mulher trepados numa escada enquanto pintam as paredes da casa e fazer o homem arremessar a broxa longe, espalhando tinta branca em abundância (o efeito seria melhor numa versão filmada, em que a alusão ao Kubrick ficasse mais evidente). Ou, num registro mais roots, “Dois Filhos de Francisco” e tal, mostrar o seu Zé e a dona Maria no campo, suados e contentes, em pleno ato de enterrar a mandioca. (Isto é que é falar a língua do povo, companheiros. Mando pegar na mandioca do seu Zé e dizer ailóviu o próximo neguinho que vier me chamar de elitista.)
Arquivo de fevereiro de 2006
Puxa, quanta sutileza
Ecumenismo é isso aí
Padre Pinto -terapeuta holístico, ser zecélsico e membro da Opus Guei- com um boff adepto da Teologia da Libertação da Franga em pleno diálogo inter-religioso, pré-carnavalesco e, sobretudo, bilíngüe. Afffff Maria.
(Foto teratológica extraída da revista “IstoÉ Gente”.)
Call me Winston Smith
Sonhei que estava ouvindo “A Voz do Brasil” (ou “Avós do Brasil”, algo assim; não sei ao certo) no rádio do carro. Alguém cantava o antigo jingle das lojas Arapuã, com letra adaptada: “Leviatã, ligadão em você”. Spooky.
Flagrantes da vida brasileira
O presidente da República dos Estados Phodidos da Botocúndia e seu antecessor acenam para eleitores e fotógrafos segundos antes de imitar Reginaldo Faria naquela novela de Gilberto Braga, i.é., dar uma banana tão logo os primeiros e os segundos virem as costas. Ilha de Caras, 2006.
Otimismo contagia
Era o que estava escrito na tampa de uma garrafa de Coca-Cola que manuseei sem luvas cirúrgicas. Sacanagem. Vou ficar de quarentena, lendo uns 40 jornais, relatórios do IDH da ONU e uma ou outra centúria do Nostradamus. Dizem que ouvir bastante Joy Division também ajuda.
Geopolítica do baticum
A folia globalizada promete. Neste ano, as principais atrações serão o samba-enredo inspirado em “Casa Branca e Senzala”, Globeleezza Rice botando o bloco na rua em cima do Chávez e as marchinhas que estão bombando no Carnaval afegão (“será que ele é bossa nova, será que ele é Muhammad?”). Mas, como de costume, eu só quero ver Cuba lançar.
Atualização: olha a Globeleezza aí no Busílis, geeeeeeeeeente!
La vie, mode d’emploi
Antes que me acusem de pegar no pé do WS por inveja, já que ele é bunitcho, nojentamente rico e faz filmes com a Jennifer Connelly, respondo: é óbvio que é isso mesmo. Na velha fórmula machadiana, a inveja é uma admiração que luta, e não posso senão admirar um cineasta brasileiro notável por saber usar os talheres certos à mesa e não beber a lavanda. Mais: se um dia Waltinho escrever um livro mostrando como é possível ser filho do Unibanco e não pertencer à elite, serei o primeiro comprador -para fazer tudo ao contrário e, quem sabe, parar de latir no quintal para economizar cachorro. Sou bananeiro e não desisto nunca.
Máicon, eles não ligam para nós
Parece que esse negócio de jogar filho recém-nascido fora virou tendência (trend, no português castiço de Erika Patolino). A culpa, evidentemente, não é da mão que balança o berço até arremessar o bebê a dez jardas de distância, e sim da sociedade capitalista greco-judaico-cristã -ou seja, minha e sua, hypocrite lecteur que crê na responsabilidade individual. Entrementes, no orfanato Neverland, tio Máicon cuida da criançada com carinho e chamego até a idade propícia para o abate, lá pelos 12 anos. Não querendo me estender em exemplos, só lembro o que o incompreendido Truffaut dizia: ser criança é uma merda. Ele nunca esteve tão certo, hélas.
Como pode o peixe bicha viver fora da bacia?
“Meu, pensei que essa minissérie Jotacá fosse sobre a vida do Jorge Kajuru ou do João Kleber. Aí aparece o Zé Wilker de cabelo tingido e fazendo cara de chinês. O que significa isso?” “Caraca, tu é burro mesmo, hein? Essa minissérie é sobre o cara que inventou Brasília, o Jocenildo Comecheque. Sujeito importante, virou até nome de rua.” “Brasília o carro ou a cidade?” “Sei lá, acho que o carro.” “Mas fazem até minissérie pra homenagear aquela bosta? Meu pai tinha uma Brasília que vivia pifando.” “Deve ser por causa dos Mamonas. Só que, até agora, não vi nenhuma Brasília amarela. E não entendi a música de abertura, aquela que fala em ‘peixe bicha’.” “Ah, deve ter alguma coisa a ver com o Robocop Gay. Não fizeram um filme sobre ele agora? Ganhou Oscar, Grammy e tudo.” “Só, podicrê que é isso.”
Depois dizem que a igreja não evolui
O reverendo Sergio Gutiérrez Benítez precisava de dinheiro para seu orfanato em Teotihuacán, perto da Cidade do México. O que ele fez para obtê-lo? Ora, o que qualquer um na sua situação faria: tirou do armário seu Ted Boy Marino interior, colocou uma máscara e uma capa dourada e se transformou em Fray Tormenta, homem de fé e gigante do ringue. Consta que o Frei Tempestade está aposentado -mas, mesmo assim, quem negaria que ele forma um gracioso par com o Padre Pinto, bailarino, artista plástico, terapeuta holístico e ser zecélsico? Com os dois, a igreja mostra que entende não só de evolução como de fantasias, alegorias e adereços. Esse é o canal. Os católicos do Brasil só teriam a ganhar se, por exemplo, Frei Betcha parasse de ajudar o governo a fazer merda (o que ele faz muito bem sozinho) e subisse ao ringue para enfrentar o Caboclo Selvagem.



