George Orwell está com o pé sobre a bola na marca do pênalti: “Serious sport has nothing to do with fair play. It is bound up with hatred, jealousy, boastfulness, disregard of all rules and sadistic pleasure in witnessing violence: in other words it is war minus the shooting“. Embaixo da trave, esperando a cobrança, Albert Camus: “Tout ce que je sais de plus sûr à propos de la moralité et des obligations des hommes, c’est au football que je le dois“. Pergunto: Orwell acertou a bola no ângulo, “lá onde a coruja faz o ninho”, ou Camus “se esticou todo” para espalmar pela linha de fundo? (Eu acho que o Rogério Ceni do existencialismo fez uma bela defesa. Discordem ou concordem à vontade nos comentários.)
Arquivo de maio de 2006
1984: o medo do estrangeiro diante do pênalti
O ser e o nádegas
Simone de Beauvoir, em foto de 1950, exibe todo o ziriguidum, telecoteco e forrobodó do existencialismo, com toques de celulite e estrias for good measure. Que “existência” e “essência” o quê -síntese filosófica é isso aí.
(E eu que pensava que o bundão da dupla fosse o Sartre.)
Arbeit macht frei
Seres com carteira assinada -pensando bem, também sem ela- conseguem se acostumar com qualquer coisa: a ração da senzala, as chicotadas do Rubens De Falco, tudo. Agora, não respirar sem sentir um cheiro que é como se alguém abrisse, na central de ar condicionado, um pacote de meio quilo de salgadinhos Torcida sabor dirty socks não dá. Tudo tem limite.
(Cadáver na tubulação é outra hipótese a considerar. Aí acho bacana: era a última coisa que faltava para a gente se sentir num filme do Vincent Price.)
A, E, I, O, U, Ypsylone
Creiam: o Y deixa tudo mais chique. É o ingrediente mágico que confere a qualquer palavra, sobretudo nomes próprios, luxo, glamour e riqueza. (Sou Ruy com Y, mas Goiaba sem, o que é um destino: estou condenado, desde o nascimento, a ser no máximo semichique, o que talvez explique meu gosto por combinar mocassim com moletom.) Enquanto não se faz aquela tese antropológica sobre a criatividade brasileira aplicada ao batismo dos filhos, pensem em quão mais pobre, no sentido estético, seria a palavra “Richarlysson” -jogador cujo futebol é tão belo quanto seu nome- sem esse Y colocado estrategicamente antes dos SS. Pensaram? Pois é.
Ah, mas também já fui brasileiro, moreno e preconceituoso como vocês. Já escarneci do Y, já o considerei atestado de cafonice irredimível. Há uns 15 anos, um amigo me falava da possibilidade de K, W e Y serem incorporados ao alfabeto em português: “Que coisa mais inútil! O que é que a gente vai escrever com Y? Ynhame?”. Juro -esse “ynhame” provocou o maior ataque de riso da minha vida. Quase precisei de um balão de oxigênio. Tudo culpa do ridículo que eu via no Y (admito que Glauber Rocha, legytymo defensor do kynema brazyleiro, ajudou bastante).
Houve, porém, um momento de iluminação, em que me rendi aos poderes do Y. Foi na frente de um boteco em Piçaraguatuba-Mirim, no exato instante em que, totalmente sóbrio, olhei para o toldo, li os dizeres-
DRINK’S E BYRYNYGHT’S
-e a luz se fez. Mynha vyda nunca mays serya a mesma. Yssa!
Adendo: Só agora atinei com a explicação. O dono do boteco é concretista, e cada Y em BYRYNYGHT’S equivale a uma tacinha de dry (olha o ipsilone aí) martini. Como não pensei nisso? Coysa de gênyo.
Contra a vulgaridade
Há um momento em que os acontecimentos deixam de nos entediar, como acontecia com o Valéry -sua feiúra e sua vulgaridade nos levam a um estágio pior, que é o da exasperação. Merecemos coisa melhor. Por isso pus esse vídeo aí em cima: John Coltrane (sax soprano), McCoy Tyner (piano), Reggie Workman (baixo) e Elvin Jones (bateria) tocando “Every Time We Say Goodbye”, do Cole Porter, na TV alemã em novembro de 1961. Que um pouco de arte ajude nossa semana a começar bem. Enjoy.
O pececê está dentro de você
Primeiro, neguinho vem e diz que o pânico em SP se deve ao fato de a classe mérdia ser um bando de galinhas apavoradas, que se assusta sem motivo. (Claro, vesti a carapuça imediatamente e refleti. E eis que se fez a luz: o certo era eu me fantasiar de puliça, ir para a frente de uma delegacia, balançar a benga e gritar “Aê, pececê, bando de broxa! Pega eu!”. Quem sabe na próxima.) Depois aparece o governador, mr. Burns em pessoa, que, do alto de suas sapientíssimas sobrancelhas, aponta o dedo para a “elite branca”, responsável pela violência. Meu contracheque nunca permitiu o acesso a esse clubinho privê da zelite, mas a falta de melanina não deixa a menor dúvida: pelo menos metade do recado é para mim.
Então tá. Minha reivindicação é a seguinte: pagar mais impostos. Não para que o Estado me dê segurança (ha-ha-ha), mas para ter o direito de dar pelo menos um tiro no cu do governador e de outros políticos à minha escolha. Se for uma coisa filme-do-Tarantino, com vísceras explodindo, banho de sangue na parede e tal, melhor ainda: pagarei feliz. Afinal, ser responsável pela violência não tem graça se a gente não puder se divertir um pouco, como Marcola e amiguinhos no seu playground paulistano.
Acho que vou ali queimar um ônibus, just for fun, e já volto.
Grandes biografias de pequenos brasileiros
Getúlio Vargas caiu na vida e entrou para a história ao assumir o lugar de Renato Borghetti, o Borghettinho, nos Engenheiros do Hawaii. Nessa célebre banda gaúcha, logo rebatizada como Getúlio Vargas’ Lonely Hearts Club Band*, nosso pequeno grande homem fazia de tudo: era patrono, fundador, lead vocal, solista de gaita-ponto e amarrador de cavalo no obelisco. Passou sua lua-de-mel na cama, com dona Darcy e Alzirinha, em defesa da Petrobrás: o bed-in foi transmitido em boletins diários do “Repórter Esso”. Morreu num acidente em 1966, coisa que até hoje é escondida dos fãs -aquela foto da capa do “Abbey Road”, em que ele atravessa a rua de bombacha e descalço, foi feita com a ajuda de seu dublê, Leonel Brizola. (Quem duvidar que escute o final de “Strawberry Fields Forever”, em que John Lennon repete claramente “o petróleo é nosso”.)
* Tem até comunidade no Orkut, mira qué rico.
Reunião de cópula das Américas
Eis a foto oficial do último encontro dos homens (?) que decidem os destinos de todo um continente. Em sentido horário, a partir de baixo, vemos Kofi Annan e sua roupitcha das forças da ONU, Efelentífimo e seu capacete de operário, Jorge Dáblio Arbusto e seu chapéu de caubói, Evo Morales e seu cocar, Hugo Chávez e seu quepe, Fidel y su bigodón. Embora o índio e o caubói estejam, de modo geopoliticamente significativo, bem atrás do operário, todos os membros têm se empenhado em alargar o círculo íntimo do brasileiro; sabe como é, quem quer cadeira no Conselho de Segurança tem de aprender a sentar. “Relações exteriores”, hummm.
(Obrigado ao Roger Prado pela idéia.)
Cría cuervos…
…y te sacarán los ojos. Chupa, Efelentífimo.



