Água e sabão estão na moda, o mundo aplaudiu -isto é, se você estiver fora daquele estrato social que recebe Bolsa-Família, mas não saneamento básico. Apenas passar na frente de lojas como esta me dá dor de cabeça (não posso crer que quem trabalhe ali ainda saiba o que é olfato), mas sei que lá dentro há uma miríade de sabões jamais imaginados: banana moon, cherry tree lane, figs and leaves, extra virgin olive, sandstone e até karma soap (“vinde ensaboar vossos pecados”). Se me disserem que há um sabão feito de bosta de gente, deliciosamente perfumado, não duvidarei. Nem Paulina Bonaparte, integrante da única família que viveu em território francês e gostava de tomar banho, imaginaria tal riqueza de opções.
Não adianta. Pelo menos para mim, é impossível não lembrar esta passagem (e vai na versão king James, que é mais altissonante): “And as he spake, a certain Pharisee besought him to dine with him: and he went in, and sat down to meat. And when the Pharisee saw it, he marvelled that he had not first washed before dinner. And the Lord said unto him, Now do ye Pharisees make clean the outside of the cup and the platter; but your inward part is full of ravening and wickedness“. Para as mãos e o resto, Vinólia amarelo -sensível diferença- está mais do que bom; naquilo que não é corpo, não há sabão exfoliante que dê jeito. Woe unto us.
(Manuel Bandeira, num poema a Mário de Andrade, citava um palíndromo numa pia de igreja em Bizâncio, que traduzido dá “lava os pecados, não laves só a cara”. E continuava: “Mário eles não lavam os pecados nem a cara/ Os homens são horríveis/ Por isso HÁ QUE OS AMAR”. Vá com calma, poeta, e guarde essa caixa-alta para você. Me inclua fora disso.)