Arquivo de dezembro de 2006

domingo, 31 de dezembro de 2006

A flor que fende a rocha

Como último post de 2006, deixo aqui mais um poema, desta vez do William Carlos Williams (1883-1963), “A Sort of a Song”. Sempre penso nele como contraponto mais otimista à pedra do Drummond -e é de algum otimismo que precisamos a cada nova translação. Feliz 2007 a todos.

Let the snake wait underhis weedand the writingbe of words, slow and quick, sharpto strike, quiet to wait,sleepless.

-through metaphor to reconcilethe people and the stones.Compose. (No ideasbut in things.) Invent!Saxifrage is my flower that splitsthe rocks.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Trilha sonora do dia

Duas musiquinhas natalinas de presente para vocês (ho, ho, ho). Clicando no primeiro linque, pode-se baixar “White Christmas”, o clássico de Irving Berlin, na voz de Darlene Love -é a faixa de abertura do disco de Natal produzido por Phil Spector, com vários artistas, em 1963. O segundo linque é para “Jesus Christ”, da banda cult Big Star, composta pelo líder do grupo, Alex Chilton, e gravada no meio da década de 70 (favor não confundir a “Jesus Christ” do Big Star com “Jesus Christ Superstar”).

Mais uma vez, joyeux Noël para todo mundo aí.

Darlene Love, “White Christmas”

Big Star, “Jesus Christ”

domingo, 24 de dezembro de 2006

Tradicional post natalino

Desta vez, não é um post musical, mas poético. Deixo para vocês “The Cultivation of Christmas Trees”, escrito em 1954 por T.S. Eliot (1888-1965), e desejo um ótimo Natal a todos. (Volto ainda antes de 2007.)

There are several attitudes towards Christmas,Some of which we may disregard:The social, the torpid, the patently commercial,The rowdy (the pubs being open till midnight),And the childish -which is not that of the childFor whom the candle is a star, and the gilded angelSpreading its wings at the summit of the treeIs not only a decoration, but an angel.The child wonders at the Christmas Tree:Let him continue in the spirit of wonderAt the Feast as an event not accepted as a pretext;So that the glittering rapture, the amazementOf the first-remembered Christmas Tree,So that the surprises, delight in new possessions(Each one with its peculiar and exciting smell),The expectation of the goose or turkeyAnd the expected awe on its appearance,So that the reverence and the gaietyMay not be forgotten in later experience,In the bored habituation, the fatigue, the tedium,The awareness of death, the consciousness of failure,Or in the piety of the convertWhich may be tainted with a self-conceitDispleasing to God and disrespectful to children(And here I remember also with gratitudeSt. Lucy, her carol, and her crown of fire):So that before the end, the eightieth Christmas(By ‘eightieth’ meaning whichever is the last)The accumulated memories of annual emotionMay be concentrated into a great joyWhich shall be also a great fear, as on the occasionWhen fear came upon every soul:Because the beginning shall remind us of the endAnd the first coming of the second coming.

sábado, 23 de dezembro de 2006

Novidades no front

A página inicial do portal agora inclui linques para nossos posts mais recentes. E, enfim, retomamos as nossas apostas -o tema da aposta da vez é cambalacho, essa coisa totalmente desconhecida de quem vive no Bananão. Sim, fizemos um esforço de imaginação inédito para escrever.

Esperamos que vocês apreciem.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

É tudo banana, é tudo farinha

E então os pulhas lá do Congresso se dão um aumento de quase 100% e o sofrido povo trabalhadô brasileiro se indiguina, com ênfase no “gui”. Com razão, é óbvio. Eu fiquei indignado, você ficou indignado, ele ficou indignado, Cafuringa, Natal e Jairzinho indignados etc. etc. But wait a second: quem faz a polititica do Bananão veio de Marte? Do Império Klingon? De Alfa do Centauro? Surgiu por geração espontânea? Fugiu de algum círculo do inferno do Dante e se sentiu muito à vontade naqueles prédios do Niemeyer? Leitor, faça um esforço: é um acontecimento antiqüíssimo, mas sei que você vai se lembrar. Lembrou? Pois é. Esses políticos foram eleitos, ou reeleitos, por essa gente bronzeadinha e indignada -que votou neles apesar das evidências de que eram pulhas.

Os habitantes da Botocúndia parecem achar que não existe relação nenhuma entre seu voto e a qualidade dos políticos (pela qual não se responsabilizam, apesar de escolhê-los). Além disso, cultivam uma auto-imagem tão elogiosa quanto equivocada -aquela história do “somos um povo honrado governado por ladrões”. Não. Os piores personagens da polititica não são extraterrestres: também são “povo”, mas com muito mais acesso àquelas ocasiões que fazem os grandes ladrões. Observem com atenção os protestos contra o reajuste. Quem levantar uma camada de significado (“esse aumento é imoral”) freqüentemente encontrará outra, mais profunda (“esse aumento só é imoral porque a farra não me inclui. Sacanaj”). “Ou nos locupletamos todos ou restaura-se a moralidade”, frase popularizada por Sérgio Porto, é a eterna síntese do caráter bananeiro.

Brasileiros e brasileiras fizeram por merecer a merda. Agora engulam.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Goiaba Jazz Gallery

Photobucket - Video and Image Hosting

Bill Henderson é um daqueles cantores de jazz que, como se diz em inglês, didn’t make it big -e quem o conhece não consegue entender por quê. Para o público dos EUA, Henderson, hoje perto dos 80 anos, é talvez menos desconhecido como ator, graças aos papéis em geral pequenos que fez em inúmeros seriados, de “Profissão Perigo” a “ER”, e em filmes como “White Men Can’t Jump”. (Ele brinca com o fato de ser pouco conhecido: foi o único cantor que vi subir ao palco, num festival de jazz, usando crachá.)

Não sei se Bill Henderson continua fazendo shows, mas ele era um grande cantor. Voz ligeiramente rouca (muito comparada à de Joe Williams, que cantava com a banda de Count Basie), excelente senso de dinâmica, ótimo nas músicas de andamento mais rápido e matador nas baladas. O melhor dele está concentrado em álbuns como a coletânea, em dois CDs, de seu período na gravadora Vee-Jay, entre 1959 e 1961 (sobretudo as faixas em que é acompanhado pelo trio do pianista Ramsey Lewis). Mas sua provável obra-prima é o disco cuja capa está aí em cima, gravado com o trio de outro grande pianista -Oscar Peterson- em 1963. Bom do começo ao fim.

Exemplo grátis? Pois não. Clicando no primeiro linque aí embaixo, vocês poderão baixar uma das faixas desse disco com Peterson -”I Wish You Love”, versão em inglês da clássica “Que Reste-t-il de Nos Amours?”, de Charles Trenet. Se você não gostar, é porque não tem alma, seu insensível.

Bill Henderson, “I Wish You Love”

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Bloco dos sambistas lacanianos

1. O lema

“Ruins da cabeça, sim. Doentes do pé, jamais.”

2. O samba-enredo

Somatiza, mulata, somatizaSomatiza, tô somatizando (10x)

3. O desfile

Acaba em menos de cinco minutos. E custa um dinheirão.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Anch’io son’ pittore

Que coisa esplendidamente democrática é a internet. Ela já permitia que seres completamente ignorantes em programação -tecnocapivaras perfeitas e acabadas- tivessem blogues; agora, graças ao fabuloso Strip Generator, sujeitos incapazes de desenhar uma casinha ou fazer um O com o copo também podem pagar de cartunistas. Foi o que fiz, depois de jogar fora meu 47º rascunho de casinha. Portanto, clicando no linque abaixo, vocês poderão ver minha primeira tirinha ever. São uma boa saída sempre que eu ficar sem assunto e precisar enrolar -”Goiaba em crise”, sacumé.

Tirinha goiabal

(Atualização, 20/12: Não dá mais para ver a tirinha -misteriosamente, o site passou a pedir uma “senha” que até ontem era desnecessária. Gerundismo básico: estamos trabalhando para estar tentando resolver.)

sábado, 16 de dezembro de 2006

What a drag it is getting old

Depois de mais um mês sem escrever, constatei que existe um negócio chamado crise de meia-idade blogueira. Não crise de meia-idade do blogueiro, mind you, embora eu já esteja com 36 anos (que não são 36 dias, como dizia a vizinha gorda e patusca do tarado-de-pijama). É do blogue mesmo. Pior: com pouco mais de cinco anos, o puragoiaba já pode ser considerado ancião, levando em conta a alta taxa de mortalidade infantil do meio. Blogues velhos só têm como perspectiva asilo, reumatismo e osteoporose -não podem comprar um Porsche nem dar uma de Olacyr de Moraes e sair por aí com dois blogues-fêmeas com um terço de sua idade. Não há psicanalista para a crise de meia-idade do blogue nem um Woody Allen para fazer filmes sobre o assunto. Não há Johnnie Walker Black Label que afogue suas blogmágoas. E um dia ele começa a dar sinais de Alzheimer -quando repete duas, cinco, dez, cem vezes o mesmo post.

(Mas nem tudo está perdido. Basta o blogue descobrir qual é o seu Viagra.)