Meu cabelo também. Não se vê o cabelo, mas dá para ouvir a voz aqui.
E, se você chegou pelo linque aí em cima, bem-vindo. Passeie à vontade pelo blogue, vasculhe os arquivos e tal. Só não deixe seu cachorro fazer cocô na minha caixa de comentários. Não, você mesmo também não pode.
Post novo? Não por enquanto, so sorry. Fiquem com um repost dos “exercícios de estilo” que coloquei aqui em 2004. Brinquei de “psicografar” alguns escritores usando como tema a história do cachorrinho que tinha três pernas, foi fazer xixi e caiu. Espero que vocês gostem, neófitos.
Thomas Bernhard
“Eu estava cansado de ver aquelas caras idiotas, aquele povo imbecil com seu ar soberbamente idiota, aqueles vienenses enfatuados e idiotas enquanto estava recostado ao muro, pensava ‘como podem os habitantes de um país ser tão congenitamente, tão irremediavelmente idiotas, é repulsivo’, enquanto recostado ao muro observava o grotesco espetáculo de um cão nojento cheio de feridas, com uma perna a menos, mancando em direção a um poste idiota, idiota como cada centímetro quadrado de Viena, eu pensava recostado ao muro ‘esse cão sem perna é igual aos vienenses, todos são cérebros com uma pata a menos, todos encostam-se no poste para urinar e caem e rolam no próprio mijo, esses vienenses tão estúpidos, sarnentos e idiotas’, pensava enquanto estava recostado ao muro e o cão tentava urinar e caía.”
Clarice Lispector
“Eu era uma cadela de três pernas. E não era. Melhor: eu me era sendo, obliquamente, desequilibradamente. Me era, vista de fora -com a dolorosa consciência da perna faltante, mas indiferente. E vista de dentro, espessa, sem compreender, sem nem ao menos tentar. E era também uma perna que perdeu a cadela. E era o poste, a cadela, a ausência da perna. Tudo se me era assim- tão imóvel, tão docemente sem sentido, tão perna. E eu me era sendo, vendo o líqüido luminoso e amarelado, orelha abrupta colada ao chão. E a urina se me era, e eu não sei o que digo, e então adoro.”
Dalton Trevisan
“Sarnento, aquele cão. Tinha três pernas. Foi mijar. Caiu.”
Jorge Luis Borges
“O cão de três pernas aparecia em uma inscrição tumular de Amenófis IV até ser apagado pela fúria dos sacerdotes, no reinado dos Ptolomeus Selêucidas. Também estava em uma moeda que circulou brevemente na Morávia em 1725 e em um tratado esotérico falsamente atribuído a Athanasius Kircher; ainda hoje se ouvem relatos do século 19 segundo os quais um cachorro triperne, que presumivelmente carregava a alma de Tadeo Isidoro Cruz, aparecia em sonho aos estancieiros de Santa Fé. Conta-se que a hoje perdida Encyclopaedia Universalis (Colônia, 1674) dedicava pelo menos dezessete páginas ao cão manco e aos seus símbolos. Jantando certa noite com Bioy Casares, disse-me ele que, no tempo de Averróis, o Livro das Coisas Maravilhosas narrava a história do cachorro de três pernas que se perdia num labirinto de espelhos. Enganado pelo próprio reflexo e pensando que suas pernas eram seis, o cão tentava urinar num dos infinitos postes do labirinto -e caía infinitamente. ‘É por isso’, continuou Bioy, ‘que os heresiarcas de Uqbar abominam os espelhos e a cópula: eles multiplicam o número de cachorros pernetas’.”
Fiódor Dostoiévski
“Ao cair da tarde de um final de julho, calor abafado e sufocante, o jovem Vassíli Vassiliévitch Distimikov deixou o quarto infecto que subalugava de inquilinos na travessa S. para respirar um pouco de ar puro e, a passos trôpegos, encaminhou-se à rua V. Sentia a boca amarga, sua cabeça zunia e seus nervos bem poderiam explodir à primeira contrariedade. Percebeu tarde demais a aproximação de um conhecido, Goiabadov, o fiscal de rendas; ainda tentou passar para o outro lado da calçada, mas não teve como se desviar.
- Meu amigo Vassíli Vassiliévitch!… Que bom vê-lo por aqui!… Muito, muito bom mesmo… Precisava mesmo falar consigo!…
- Não tenho dinheiro para lhe emprestar, Piotr Fiodoróvitch -disse Distimikov, mordendo os lábios e enfiando os punhos cerrados nos bolsos. Mal conseguia conter sua irritação com o encontro: o mau hálito, a barba por fazer e a casaca sebenta e amarfanhada de Goiabadov davam-lhe a impressão de que ele dormira na rua.
- Mas não se trata de dinheiro, Vassíli Vassiliévitch!… Homessa!… Não é de dinheiro que se trata, não, não, absolutamente!… Só quero um minuto de sua atenção… Acredita você que fui demitido? Sim, demitido, Vassíli Vassiliévitch! Depois de trinta anos a serviço do governo! Não é por me gabar, mas não poderia haver funcionário mais leal, mais dedicado do que eu! Isso é coisa de Zebucetov, aquele intrigante… Aquele canalha andou espalhando que eu bebia em serviço… Bebo muito, sim! Sou um bêbado repulsivo, patético, sei disso! Mas não em serviço, nunca, jamais… -a custo Goiabadov reprimia o choro- E sabe o que mais, Vassíli Vassiliévitch? Minha mulher me expulsou de casa hoje!… Disse que eu a envergonho, a ela, que é descendente de um general… Que nunca há comida em casa, que nossos filhos se vestem com trapos sujos, e é tudo por minha causa… Sim, por minha causa, Vassíli Vassiliévitch! É injusto, muito injusto… Sou mais maltratado do que aquele cão perneta que está descendo a rua! Mais maltratado, palavra de honra, Vassíli Vassiliévitch!
Nesse momento, Distimikov desviou sua atenção do fiscal e viu que o cão acabara de cair ao tentar urinar numa estátua de Pedro, o Grande. Rapidamente, um grupo de crianças se juntou em volta do animal, rindo muito, e começou a atirar nele pedras e gravetos.
- Cachorro perneta, cachorro perneta! Saia daqui, seu cachorro bobo e perneta -gritavam. Num acesso de fúria, Distimikov avançou sobre os meninos. Cada um correu para um lado da rua.
- Saiam daqui vocês, seus pequenos demônios! Não têm pena, não se compadecem de um pobre cão sem perna? Demônios, é o que sois! Demônios!… -berrava, entre soluços, enquanto se ajoelhava no chão diante do animal, bastante machucado. – Não é diante de ti que me ajoelho, mas diante de todo o sofrimento canino!”
Lewis Carroll
“Alice estava andando pelo bosque e dizendo a si mesma: ‘Como seria bom transformar certas crianças em porquinhos! É verdade que muitas delas não precisam. Talvez seja melhor transformar alguns porquinhos em crianças. Sim, definitivamente’. De repente estacou, surpreendida, ao ver o Cachorro Perneta Sorridente de Cheshire no alto de um galho de árvore, sorrindo e fazendo xixi para o alto. Achou que ele parecia afável, mas, como não queria se molhar, sentiu que devia tratá-lo com respeito e à distância.
- Cachorrinho Perneta de Cheshire -começou a dizer timidamente, sem saber se ele gostaria do tratamento; mas o cão apenas abriu um pouco mais o sorriso. ‘Ótimo, parece que gostou!’, pensou ela, e prosseguiu: – O que você está fazendo em cima dessa árvore? Cães não sobem em árvores. Muito menos cachorros pernetas.
- Como não? Por acaso eu não estou aqui? -disse o Cachorro, sem parar de sorrir e de fazer xixi para o alto.
- Mas isso não faz sentido! -replicou Alice, já irritada. – Se você fosse um cachorro de verdade, cairia ao levantar a perna. E você não pode fazer xixi do alto da árvore. Vai molhar as pessoas.
- Eu sou um Falso Cachorro Perneta -respondeu o bicho, sempre sorrindo. – Se você se comportar direitinho, posso cantar a Canção do Falso Cachorro Perneta Sorridente. Quanto à chuva, basta que você vá à casa do Chapeleiro, naquela direção -e levantava a segunda pata-, ou à da Lebre de Março, naquela outra -agora o cão tinha as três patinhas no ar. – Eles têm uma coleção de guarda-chuvas: milhares, de todas as cores, formatos e sabores. Tomam chá em um, dormem em outro, usam um terceiro para passear pelo lago e um quarto para escrever suas cartas. Peça-lhes um guarda-chuva emprestado. Ou pegue um. Não darão pela falta.
- Dormir num guarda-chuva é coisa de gente maluca -disse Alice, e imediatamente se arrependeu do que tinha dito.
- Sem dúvida -ponderou o cachorro. – Todos aqui somos loucos. Eu sou louco. Você é louca.
- Como sabe que eu sou louca? -indagou Alice.
- Deve ser. Senão, não estaria aqui conversando com um cachorro perneta sorridente na hora em que ele satisfaz suas necessidades. Menina mais inconveniente. Seus pais não lhe deram modos?
Furiosa, Alice pôs-se a balançar o galho da árvore, para tentar fazer o cachorro cair. No mesmo instante ele se esvaiu no ar: apenas o sorriso permaneceu suspenso por algum tempo e, depois, também sumiu. Satisfeita, Alice tomou o caminho da casa do Chapeleiro. No meio dele, porém, foi apanhada pela chuva.”

