Arquivo de fevereiro de 2008

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Filósofos que batiam um bolão (2)

Embora a consulta à Wikipedia nos informe que o basquete foi inventado nos Euá no fim do século 19, poucos sabem que o verdadeiro criador do esporte foi Immanuel Kant, que o concebeu como um modo de tonificar o corpo e dar repouso ao espírito durante os rigorosos invernos de Königsberg (“nem tudo é metafísica, os senhores sabem”, dizia aos amigos). O filósofo redigiu as regras, colocou cestos para papéis no alto de duas árvores em cada uma das extremidades do seu jardim -afinal, ainda era verão- e convocou dez eminentes sábios da cidade para o jogo inaugural.

Antes da partida, um dos convidados teve uma dúvida: “Há alguma punição prevista para quem, digamos, empurrar um jogador adversário?” “Nenhuma.” “Por que não?” “Ora, a boa conduta esportiva não pode ser tão-somente fruto do medo das punições. Onde fica o sentido do dever, senhores? Somos todos pessoas cultas; nenhum de nós fará ao outro o que não gostaria que o outro fizesse”. Kant dividiu os times (“imperativos” de um lado, “categóricos” do outro) e apitou o início do jogo. Foi uma carnificina: pontapés, puxões de cabelo, cotoveladas, mordidas, dedadas no olho, joelhadas no saco e argumentação erística de baixíssimo nível.

O novo esporte morreu em sua primeira tentativa. Desconsolado, Kant retirou-se para casa, onde passou os dias escrevendo a “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” e jogando vinte-e-um sozinho no jardim.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Obama é filho de Gandhy

Photobucket

Eu gostei, mas dizem que o eleitorado WASP careta conservador reacionário lá dos Euá não vota em político que desfila em bloco do Carnaval baiano. De todo modo, daqui a pouco aparece alguma foto da Hillary com camiseta do Olodum ou, quem sabe, do McCain vestido de Carmen Miranda. Lá como cá, democracia = ziriguidum + sambarilove*.

* Crédito pra Nova Corja. A foto é da Associated Press.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Outro nível

Aqui no Bananão blogueiro fica nesse nhenhenhém de Campus Party, iBest, briguinha com jornalista, monetização e o canário a quatro. Lá fora, já tem blogueira ganhando Oscar. (Pensando bem, esses americanos são loucos. Por princípio, o máximo que blogueiro merece é um Kikito, o nome de prêmio mais ridículo da história do cinema mundial. E olhe lá.)

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Essas pessoas na sala de jantar

A mesa ficou pequena -felizmente, convém dizer. A famiglia (“portal A Postos é cosa nostra, mas o que vai vai” etc.) tem dois novos integrantes: o 8 Bits e Meio, do Leopoldo Godoy, e o Arrastão, da minha queridíssima Janaína Leite. Vão lá: como diria Christian Fittipaldi, “eu rrrecomendo”.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Civilização do Ocidente, atenção

Não consigo deixar de rir ao ouvir o Erasmo Carlos cantando essa solene admoestação com aquela mesma voz que estamos acostumados a ouvir em coisas como “Pega na Mentira” (“beijei o Beijoqueiro na televisã-ão…”).

Humor, sabe-se, é contexto. Mas o pior é que o cara está certo: somos umas crianças que, sentadas à beira do caminho, não entendem nada.

Cada época tem o Erasmo que merece.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Pequenas biografias de grandes escritores (2)

Gustave Flaubert (1821-1880)

Autor famoso por ser constantemente confundido com o chef José Hugo Celidônio e pela busca obsessiva da palavra justa (le mot juste), que o tornou o terror dos atendentes de todas as lojas do Faubourg Saint-Honoré. (Eis um diálogo extraído de uma das suas cartas: “Ficou bom?” “Olha, seu Flobér, Deus é justo, mas essa sua palavra… virgem santíssima! Tá muito apertada aqui atrás, vai deixar o senhor todo assado. Não prefere uma palavra um tantinho mais folgada, confortável?” “Não! Tem que ser a palavra JUSTA!” “Tá bom, seu Flobér, depois lasseia mesmo. Os outros clientes podem usar o provador agora? O senhor já está aí há seis horas!” “Só mais um minutinho.”) Escreveu volumosa correspondência e, perdidos no meio dela, um romance aqui e um conto ali. Entre suas principais obras estão aquela da mulher que pulava a cerca, aquela outra da mulher que tinha um papagaio, “A Educação Sentimental” (depois regravada pelo Kid Abelha) e “Bouvard e Pécuchet”, cujo apêndice, o “Dicionário das Idéias Feitas”, foi crescendo tanto que um dia estourou e matou o escritor. Por ter morrido antes de entregar a revisão definitiva dos dizeres do seu túmulo, acabou sendo enterrado em Lins (lugar incerto e não sabido).

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Pessoa revisto e remixado

Arre, estou farto de gente!

(Onde é que há deusas no demi-monde?)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Pequenas biografias de grandes escritores

Honoré de Balzac (1799-1850)

Autor que modificou seu sobrenome original, Balssa, para tirar onda de gentilhomme, muitíssimo antes do advento da numerologia. Consta que as suas principais ocupações eram falir e fugir dos credores, não necessariamente nessa ordem. Entre uma falência e uma fuga, tomava café e escrevia torrencialmente. Suas principais obras são “A Divina Comédia Humana”, escrita em parceria com Dante Alighieri e Belchior, e “A Mulher de 50 Anos”, de onde se originou o termo “prozaquiana” (originalmente eram 30 anos, mas fizemos a atualização monetária levando em conta a inflação desde 1832 e a cotação do botox). Morreu de overdose de cafeína e é, por isso, constantemente confundido com Jim Morrison, o que faz seu túmulo no Père Lachaise ser destruído em média duas vezes por semana.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Desconstrói, mulata, desconstrói

Quem lê este blogue sabe que Carnaval bom é com o bloco Derrida ou Desce. O pessoal cai de boca na desconstrução e só volta ao mundo logocêntrico na quarta-feira. (Ou não, porque eles começam a questionar o próprio conceito de “quarta-feira” e não conseguem mais voltar: “Vocês já perceberam a arbitrariedade que é esse negócio de a quarta vir sempre, sempre, depois da terça e antes da quinta?”. Aí fodeu.)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister

Ter sido leitor do “Planeta Diário” na adolescência deixou em mim seqüelas irreversíveis, das quais a mais evidente é, talvez, este blogue. Fiquei tão seqüelado que não resisti a comprar a antologia do jornal, lançada recentemente. Ela serviu para me mostrar duas coisas. Primeiro, que o Hubert e o Reinaldo -e o Cláudio Paiva, que não faria parte do programa do bando lá na Grobo- eram realmente bons humoristas: o livro é divertidíssimo, apesar de a seleção ter alguns senões (principalmente, excesso de fotonovelas e a imperdoável ausência de uma obra-prima como “Drummond na academia”). Segundo, que a correção política desidratou completamente o humor brasileiro em vinte e poucos anos. Manchetes no estilo das do velho “Planeta” -por exemplo, “Ministra usa cartão corporativo para cagar na entrada e na saída de free shop”- não podem nem ser cogitadas hoje, quanto mais escritas. Melhor evitar.