Para continuar no clima “Leste Europeu” do post anterior, escolhi hoje uma música do guitarrista húngaro de jazz Gabor Szabo. É talvez a mais conhecida dele, “Gypsy Queen” -que ganhou regravação do Santana, naquele medley com “Black Magic Woman”. A versão original está no álbum “Spellbinder”, de 1966, que aliás recomendo. Bom fim de semana!
Arquivo de maio de 2008
O esporte mais completo
Na biografia de Antônio Maria que escreveu para a coleção “Perfis do Rio”, Joaquim Ferreira dos Santos conta que, numa manhã carioca dos anos 50, o cronista e Vinicius de Moraes saíram da última boate e se depararam com um bando de senhores fazendo ginástica na praia. Acharam os movimentos ridículos, os calções coloridos demais. Maria virou-se para Vinicius e disse: “Vamos fazer um pacto. Juramos neste momento que jamais participaremos de uma calhordice como a desses sujeitos”.
Talvez isso explique por que o cara morreu de ataque cardíaco aos 43 anos, mas não vem ao caso -é mais ou menos assim que me sinto ao ver essa gente esportiva que coloca um calçãozinho fúcsia no domingão e sai por aí trotando. Meu sedentarismo, porém, não me impede de apreciar sinceramente o esforço dos outros (vejam, estou aqui fazendo “joinha” para vocês, abnegados corredores) e ainda me dá uma perspectiva diferenciada: do meu ponto de vista de observador interessado, o “esporte mais completo” não é a natação, esse clichê, mas o tênis. Nenhum outro oferece deleite estético num grau que iguala ou, não raro, ultrapassa os embates mais eletrizantes. Quem clicar na “extended entry” concordará:
Conservadorismo de bandana
Meuf heróif morreram de tuberculose (é!)Meuf inimigof eftão no podêêêOrtodoxia-a, eu quero uma pra viver
Falsa etimologia verdadeira
Gonzo journalism devia derivar de Gonzaguinha. Seria mutuamente justo.
Um dia alguém contará a história de Hunter S. Thompson e do fenfível compositor brasileiro, cheios de ayahuasca na idéia, tomando um banho de água fresca no lindo lago do amor (“Fear and Loathing in Lumiar”) .
Mr. Guavaman’s Jukebox
Hoje selecionei uma música do Dr. Feelgood, banda de pub rock. O subgênero consistiu, essencialmente, num punhado de bandas-de-bar do Reino Unido que amavam roque cinqüentista, blues e soul e, no início dos anos 70, não tinham onde tocar num cenário dominado por glam, hard rock e progressivo -a não ser, você adivinhou, em alguns pubs. Essas bandas prenunciaram o punk, e o Dr. Feelgood era (my humble opinion) a melhor delas. Aqui vai, do álbum “Malpractice”, de 1975, uma das grandes “músicas de Chuck Berry” que Chuck Berry não compôs: “You Shouldn’t Call the Doctor (If You Can’t Afford the Bills)”, do guitarrista e principal compositor do grupo, Wilko Johnson. Divirtam-se. Bom fim de semana.
La lotería de los penales
Deus, que chatice essas primárias nos Euá. Nessas horas dá saudade do velho “Estadão” e seus editoriais do tipo “há muito tempo vimos advertindo a Casa Branca” (dizem que não é verdade, mas, enfim, imprima-se o mito); adoraria ler um texto exortando Hillary e Obama a definirem a vaga dos democratas na disputa de pênaltis. Afinal, pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente dos Estados Unidos.
(Parêntese: qual vocês acham que será o primeiro país a eleger um traveco -transexual, transgênero, sei lá eu- para a Presidência? Andréia Albertini emplaca a candidatura governista em 2010? Lula, Ronaldo e Jardel Filho vão dar -epa- o maior apoio? Ou Dilmão vai pôr o pau na mesa e impedir?)
Fausto Silva apresenta Goethe
FS - E agora, exatamente às dezoito horas e trinta minutos, nós vamos trazer aquele que é um grande ícone da poesia mundial! Ééé, bicho, tá pensando o quê? Não é brincadeira o que esse cara faz, não. Ele é considerado por muitos o maior poeta da história da Alemanha! Diretamente da corte de Weimar para a sua telinha, vem aí o glorioso Johann Wolfgang von Goethe aqui no “Domingão”!
(Entra JWG, um pouco assustado com a gritaria do público.)
FS – Grande garoto! Essa ferinha aqui foi quem escreveu aquela história do cara que faz um pacto com o diabo -e o cara era meu xará, é brincadeira? O Brasil todo aplaude…
JWG, timidamente – O sprich mir nicht von jener bunten Menge/ Bei deren Anblick uns der Geist entflieht…
FS (interrompendo) – Esse é o super-Goethe! Monstro sagrado da teledramaturgia alemã! Grande figura humana, tanto no pessoal quanto no profissional!
JWG – Kennst du das Land wo die Zitronen blühn?
FS – Orra, se conheço, meu. Morei cinco anos em Bebedouro…
(O poeta faz “nein-nein” com o indicador, vira-se e aponta para Caçulinha, que começa a tocar o lied de Schubert. JWG, na sua melhor voz de Dietrich Fischer-Dieskau, manda ver:)
JWG – “Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn/Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn…”
FS – Ô loco! Concertos pra juventude, galera! Quem sabe faz ao vivo!
(Idéia original do Bruno, a quem agradeço. Ah, veja a “extended entry”.)
Mr. Guavaman’s Jukebox
Mais um pouco de jazz para vocês, com Charles Mingus -baixista, bandleader e compositor fundamental para o gênero, sobretudo a partir da década de 50. Na versão que coloquei aí embaixo -do álbum “Mingus Mingus Mingus Mingus Mingus” (sim, cinco vezes)-, a música foi rebatizada como “II B.S.”, mas é mais conhecida pelo título original, “Haitian Fight Song” (era um dos temas do “Linha Imaginária”, ótimo programa de rádio que, infelizmente, sumiu na última vez em que a Cultura FM reformulou sua programação). Espero que gostem -e bom fim de semana a todos.
Pequenas biografias de grandes compositores (3)
Ary Barroso (1903-1964)
O Bananão deve a Ary Barroso, não necessariamente nessa ordem: 1) a invenção da Bahia (Caymmi já estava lá, mas, naturalmente, demorou mais a chegar); 2) a invenção do amor bobagem que a gente não explica ai-ai; 3) a manutenção de palavras como “inzoneiro”, “merencória”, “sestrosa” e “frajola” nos dicionários, dando emprego e cidadania a milhares de dicionaristas que otherwise passariam seus dias fazendo palavras cruzadas, puxando papo com desconhecidos na fila do INSS e/ou coçando o saco. Ary morreu merencoriamente, segundos depois de amarrar sua rede num coqueiro que dava coco e que, dando, rachou-lhe o coco, ai-ai.
Leda Nagle entrevista James Joyce
LN – Vem cá, James, conta pros nossos telespectadores como foi essa coisa mágica de escrever um livro como o “Ulysses”.
JJ, bêbado – O that awful deepdown torrent O and the sea the sea crimson sometimes like fire and the glorious sunsets and the figtrees in the Alameda gardens yes and all the queer little streets and the pink and blue and yellow houses and the rosegardens and the jessamine and…
LN (interrompendo, sorridente) – Arte é uma coisa gloriosa mesmo, né? E, vem cá, tem alguma mensagem pros seus leitores brasileiros?
JJ – A disincarnated spirit, called Sebastion, from the Rivera in Januero (he is not all hear), may fernspreak shortly with messuages from my dead-ported. Let us cheer him up a little and make an appunkment for a future date. Hello, Commudicate! How’s the buttes?
LN (sorrindo sempre) – Preferência nacional, com certeza. A gente agora vai pros nossos comerciais e depois volta pra um chazinho com Marcel Proust, que já está aqui no estúdio. Não saia daí.

