Já escrevi aqui, faz tempo, sobre a necessidade de uma ONG para defender esse animal em extinção que é a vírgula antes do vocativo -sou dos que acreditam que há diferenças entre “porra, cara” e “porra cara” (o exemplo é do Marcelo, no blogue antigo dele). Mas admito que a frase do título fica melhor sem essa vírgula: a saudade mata a gente morena, mata a gente loira e é a óbvia explicação para a indústria do revival de coisas horríveis como a “bad hair decade”. (Também já fui brasileiro, moreno como vocês. E sobrevivi à década de 80 -“I am very glad I shall never be twenty and have to go through that business again”, como escreveu o Auden.)
Arquivo de julho de 2008
A saudade mata a gente morena
Sonho de consumo
And now for something completely different: na falta de posts novos, eis aí a clássica cena da Holy Hand Grenade of Antioch em “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”. A santa granada de mão seria a solução de uns 85% dos meus problemas. Talvez eu ganhe uma no Natal se for bonzinho.
Mr. Guavaman’s Jukebox
Conhece “Finnegan’s Wake”? Não o livro que você usa para apoiar o monitor do micro ou deixa na estante para impressionar as visitas (e que é “Finnegans”, sem o apóstrofo), mas a música irlandesa da qual o Joyce tirou o título da obra. Estima-se que tenha sido composta no século 19. Ela conta a historinha do pedreiro Tim Finnegan, gentle Irishman with a love for the liquor, que um belo dia, de cara cheia, cai da escada e racha o coco. No velório, irrompe um quebra-pau, uma garrafa de uísque voadora erra o alvo e acerta o defunto -imediatamente ressuscitado pelo precioso líquido (se vocês tiverem alguma curiosidade etimológica, poderão verificar que “uísque” vem de uma expressão irlandesa que quer dizer “água da vida”).
Hoje não é Bloomsday nem nada, mas ainda assim sugiro um brinde com água da vida (ou água da bica, à sua escolha) ao som de “Finnegan’s Wake”, a canção. A versão da jukebox é dos Clancy Brothers com Tommy Makem; quem quiser cantar junto pode clicar no linque abaixo do player. Cheers!
Arte e ciência de batizar personagens
Cada vez mais me convenço de que dar nome a um personagem de ficção exige um talento raro, algo mais ou menos equivalente a acertar o martelo bem na cabeça de um prego minúsculo numa sala às escuras. Grandes escritores nem sempre têm esse talento -se a gente pensar bem, por exemplo, “Félicité” é uma escolha meio óbvia para o nome da protagonista de “Um Coração Simples”, do Flaubert (bastava pensar em algo que fosse o exato oposto da vida da personagem -et voilà). Por sua vez, o Stephen Dedalus do Joyce e o Humbert Humbert do Nabokov são escolhas inspiradas. Outros autores não conseguem sustentar ao longo de um livro inteiro o alto nível de inspiração do batismo dos personagens: as coisas que li do Lima Barreto sempre me dão a impressão de que, num determinado ponto, ele se desinteressava da história, terminava de qualquer jeito e ia fazer outra coisa mais interessante, talvez beber. Mas “Policarpo Quaresma”, o nome, é excelente -o caráter patético transparece antes mesmo que o personagem apareça no romance. Basta mencioná-lo.
Fora do mundo etéreo da alta literatura também há excelentes exemplos. Citei Aguinaldo Silva, o novelista acaju, no meu post de ontem. Não acompanho novelas, misturo umas com as outras e certos diálogos fazem meus ouvidos sangrarem, como acontece com o Alexandre. Mas quem há de negar que batizar um personagem que é ex-jogador de futebol e tem a cara do Paulo Gorgulho como Ataliba Timbó é um toque de gênio? Vale o mesmo para o nome completo do Sr. Barriga do seriado “Chaves”, que é Zenón Barriga y Pesado -percebam como “Zenón”, ainda mais com esse acento do espanhol, é perfeito para caracterizar uma pessoa rotunda.
Mas, para mim, o exemplo canônico da coisa é uma tirinha do Arnaldo Branco que não consigo mais achar na internet, em que ele batizou um artista plástico “transgressor” de Elmo Cariacica. Acertar o prego no escuro é isso, senhores. “Dez! Nota dez!”, como gritaria o Carlos Imperial.
Chamem o Aguinaldo (ou o Hugo)
Fernando Meirelles disse o óbvio: a tal Operação Sagatiba dá uma boa novela. A começar, digo eu, pelos nomes dos personagens -”Protógenes Queiroz” é um negócio totalmente Aguinaldo Silva, que ficaria perfeito ao lado de Osnar, Ataliba Timbó ou Ypiranga Pitiguary. E Daniel Dantas poderia interpretar seu homônimo-do-mal. Claro, fôssemos um povo mais ambicioso e a história seria filmada por um Costa-Gavras, talvez com Gian Maria Volontè, o “cidadão acima de qualquer suspeita”, como DD. Mas no Bananão, onde tudo começa e termina em chanchada, os “formadores de opinião” se dividem entre escalar o Zé Lewgoy como Gilmar Mendes ou como Protógenes. (Único modo viável de sobrevivência: adotar o imperativo categórico dercyano e mandar o país à puta que o pariu.)
Modesta proposta para a Bienal
Jackson Pollock Five -cinco caras cantando e dançando em cima de uma tela, para espalhar bem a tinta. Arte abstrata, mas com groove. Espero que seja mais bem recebido que meu projeto anterior, Umberto Eco & the Bunnymen (infelizmente, ninguém gostou da idéia de trocar Ian McCulloch pelo barbudinho lendo alguns trechos de “Apocalípticos e Integrados”).
(A trilha sonora do post está aqui embaixo. Podem clicar.)
Uma lição de amor à vida
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Hoje temos 18 minutos de Saint John Coltrane para vocês: “Olé”, principal faixa de “Olé Coltrane”, último disco do saxofonista para a gravadora Atlantic (pela qual ele lançou obras-primas como “Giant Steps” e “My Favorite Things”) antes de sua transferência para a Impulse. Na música em questão, que deve ter sido a primeira que ouvi dele (nos anos 80, numa rádio de SP -believe it or not), o sax soprano de Coltrane é acompanhado por Eric Dolphy (flauta), Freddie Hubbard (trompete), McCoy Tyner (piano), Art Davis e Reggie Workman (baixo -sim, são dois baixistas) e Elvin Jones (bateria). Gosto desse álbum a ponto de ter mandado fazer uma camiseta com a capa; espero que lhes apeteça. Bom final de semana.
Cinema escrito
Anthony Lane, da “New Yorker”, é o crítico de cinema cujos textos mais gosto de ler. Há quem não o aprecie, embora o considere bom escritor; os argumentos contra ele costumam ser do tipo “não é a Pauline Kael” (dããã, não diga), “é pop demais”, “suas críticas chamam mais a atenção para si mesmas do que para os filmes”. Quanto ao segundo argumento, não acho que seja necessariamente um defeito; ao contrário, considero virtude estilística não atravancar o texto com exibições de erudição cinéfila no estilo Hércules-de-feira-mostrando-os-bíceps. E o terceiro ponto não é um problema, sobretudo quando se trata de maus filmes (talvez uma crítica destrutiva de Lane seja a melhor razão para a existência de um filme ruim).
Todo esse preâmbulo só para dizer que, embora não esteja interessado em ver “Wanted” , gostaria de ter escrito o texto do Lane sobre o filme, que começa assim: “What is it like being Timur Bekmambetov? No artist should be confused too closely with his creations, but anybody who sits through ‘Wanted’, Bekmambetov’s new movie, will be tempted to wonder if the life style of the characters might not reflect or rub off on that of the director. How, for example, does he make a cup of coffee? My best guess, based on the evidence of the film, is that he tosses a handful of beans toward the ceiling, shoots them individually into a fine powder, leaves it hanging in the air, runs downstairs, breaks open a fire hydrant with his head, carefully directs the jet of water through the window of his apartment, sets fire to the building, then stands patiently with his mug amid the blazing ruins to collect the precious percolated drops. Don’t even think about a cappuccino. The great thing about Bekmambetov is that even the mildest of devices spur him into helpless exaggeration”.
(Quem quiser ler mais pode ir ao site.)
Rubens De Falco is watching you
Eis aí a explicação para meus posts rápidos e rasteiros: o bicho tá pegando na senzala. Nhonhô até que é bom pra mim, mas nem sempre dá para largar a moenda e vir postar. Volto quando o Leôncio estiver distraído.
(Roubei o pôster, sensacional, lá do RTFM.)



