Pequena antologia goiabal
François Truffaut (1932-1984)
"Tudo começou com um tombo na água.
Durante o inverno de 1955, Alfred Hitchcock veio trabalhar em Joinville, no estúdio Saint-Maurice, na pós-sincronização de Ladrão de Casaca, cujas externas tinha filmado na Côte d'Azur. Meu amigo Claude Chabrol e eu resolvemos ir entrevistá-lo para os Cahiers du Cinéma. Tínhamos pedido emprestado um gravador para registrar a entrevista, que gostaríamos que fosse longa, precisa e fiel.
Estava bastante escuro naquele auditório onde Hitchcock trabalhava, enquanto na tela desfilava sem parar, como que rolando, uma cena curta do filme que mostrava Cary Grant e Brigitte Auber pilotando um barco a motor. No escuro, Chabrol e eu nos apresentamos a Alfred Hitchcock, que nos pede que o esperemos no bar do estúdio, do outro lado do pátio. Saímos ofuscados pela luz do dia e, comentando com a empolgação de verdadeiros fanáticos por cinema as imagens hitchcockianas que víramos em primeira mão, dirigimo-nos, sempre em frente, para o bar que ficava logo ali, a quinze metros. Sem perceber, nós dois pulamos no mesmo passo a borda estreita de um laguinho congelado, da mesma cor cinza do asfalto do pátio. O gelo quebrou imediatamente e fomos parar no fundo, com água até o peito, aparvalhados. Pergunto a Chabrol: 'E o gravador?'. Ele ergue devagar o braço esquerdo e tira da água o aparelho, pingando.
Como num filme de Hitchcock, era uma situação sem saída: naquele laguinho inclinado, em declive muito suave, era impossível alcançarmos a beira sem escorregar de novo. Foi preciso a mão prestativa de um passante para nos tirar dali. Finalmente saímos, e uma roupeira, na certa com pena de nós, levou-nos para um camarim onde pudéssemos nos despir e secar as roupas. No caminho, disse-nos: 'Puxa! Meus filhos, coitados! Vocês são figurantes de Rififi chez les Hommes?' 'Não, senhora, somos jornalistas.' 'Então, nesse caso, não posso cuidar de vocês!'
Portanto, foi tiritando dentro de nossas roupas encharcadas que minutos depois nos apresentamos diante de Alfred Hitchcock. Ele olhou para nós sem fazer comentários sobre nosso estado e propôs um novo encontro para aquela noite, no hotel Plaza Athénée. No ano seguinte, quando voltou a Paris, nos identificou de imediato, Chabrol e eu, no meio de um grupo de jornalistas parisienses, e nos disse: 'Cavalheiros, penso em vocês toda vez que vejo pedras de gelo chocando-se num copo de uísque'.
Anos mais tarde eu seria informado de que Alfred Hitchcock havia floreado o incidente, enriquecendo-o com um final bem a seu jeito. Na 'versão Hitchcock', tal como ele a contava aos amigos de Hollywood, quando nos apresentamos depois do nosso tombo no laguinho Chabrol estava vestido de padre e eu de policial!"
(Da introdução ao excelente livro "Hitchcock/Truffaut - Entrevistas", 1966, tradução de Rosa Freire d'Aguiar para a Companhia das Letras. Observem que o relato do cineasta francês é quase o roteiro de um filme. Notem, ainda, como jornalistas são tratados pior que cachorros. Merecem, claro.)
Comments
Desconfio que a senhora que disse "então, nesse caso, não posso cuidar de vocês!" seja o próprio Hitchcock disfarçado.
(N. do E.: É uma possibilidade não desprezível, RP. Abraços.)
Posted by: Roger Prado | outubro 25, 2005 03:06 PM
Genial. Mestre, tem como instalar um linkzinho pra mandar o texto pra alguém? Vou mandar pra patroa na base do copy/paste.
(N. do E.: Mikhail, meu caríssimo, acho que é só você clicar no horário do post, aqui embaixo, para obter um linque direcionado apenas a esse texto, e não ao blogue todo. Abraços!)
Posted by: Mikhail Askhalsa | outubro 25, 2005 12:17 PM
Off-post: ô Ruy, lá no Zeno o pessoal se animou com a brincadeira e andou oferecendo uns MP3 bacanas aos interessados, no esquema 25 baixadas na semana ou seu troco de volta. Aproveite.
(N. do E.: Legal, Pinto. Gracias por avisar. Abraços.)
Posted by: Pinto | outubro 24, 2005 09:26 PM
Hitchcock era um espírito de porco.
(N. do E.: Maldade sua, Jorge. Eu o achei espirituoso, não suíno -e Truffaut parece não ter se incomodado. Abraços.)
Posted by: Jorge Nobre | outubro 24, 2005 02:02 PM