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dezembro 31, 2005
Rambô lhes deseja bom Ano Novo
"Cependant c'est la veille. Recevons tous les influx de vigueur et de tendresse réelle. Et à l'aurore, armés d'une ardente patience, nous entrerons aux splendides villes."
Tradução? É só clicar no linque aqui embaixo.
"É a vigília, entretanto. Recebamos todos os influxos de real vigor e ternura. E, ao romper da aurora, armados de ardente paciência, entraremos nas cidades esplêndidas."
Se não me engano, essa é a versão do Lêdo Ivo para o "Adeus" de "Uma Temporada no Inferno", do Rimbaud. Um ótimo 2006 para vocês -e até o ano que vem.
Posted by Ruy Goiaba at 05:32 PM | Comments (2)
dezembro 29, 2005
Antropófago de tanga revisitado
"O Brasil é uma república federativa cheia de encartes de cedê da Legião Urbana e gente dizendo adeus. Depois todos morrem. Menos o Jamanta."
Posted by Ruy Goiaba at 12:57 AM | Comments (3)
dezembro 23, 2005
Tradicional post natalino
Volto só depois do Natal, moçada (mas ainda antes de 2006, espero). Como de hábito, deixo um presentinho musical: quem clicar aqui poderá ouvir o inusitado dueto Bing Crosby & David Bowie, "Little Drummer Boy/Peace on Earth". Foi gravado pouco antes da morte do primeiro, em 1977, para um especial natalino. Eu acho que ficou bem bom; espero que vocês concordem. Um ótimo jingobéu para todos os goiabaleitores.
Aqui está a letra da música, com o diálogo que a antecede.
David Bowie: Hello... you're the new butler?
Bing Crosby: Ha ha ha! It's been a long time since I've been the new anything!
DB: What's happened to Hudson?
BC: I guess he's changing.
DB: Yeah, he does that a lot, doesn't he? Um... Oh, I'm David Bowie, I live down the road.
BC: Oh!
DB: Sir Percival lets me use his piano when he's not around. He's not around, is he?
BC: I can honestly say I haven't seen him, but come on in. Come in!
DB: But, uh...
BC: Come on in!
DB: Are you related to sir Percival?
BC: Well, distantly.
DB: Oh, you're not the... poor relation from America, right?
BC: Ha! Gee, news sure travels fast, doesn't it? I'm Bing.
DB: Oh, I'm pleased to meet you. You're the one that sings, right?
BC: Well, right or wrong, I sing either way.
DB: Oh, well, I sing too.
BC: Oh, good! What kind of singing?
DB: Mostly the contemporary stuff. Do you, eh... do you like modern music?
BC: Oh, I think it's marvelous, some of it, really fine. But tell me, do you ever listen to any of the older fellows?
DB: Oh, yeah, sure. I like, ah... John Lennon and the other one... Harry Nilsson.
BC: Mmm... you go back that far, uh?
DB: Yeah, I'm not as young as I look.
BC: None of us is these days.
DB: In fact, I've got a six-year-old son. And he really gets excited around the Christmas holiday thing.
BC: Do you go in for any of the traditional things in the Bowie household Christmas time?
DB: Oh, yeah, most of them, really. Presents, tree, decorations, agents sliding down the chimney...
BC: What?
DB: Oh, I was just seeing if you were paying attention.
BC: Ha ha!
DB: Actually, our family does most of the things that other families do. We sing the same songs.
BC: Do you?
DB: Oh, I even have a go at "White Christmas".
BC: You too, eh?
DB: And this one. This is my son's favorite. Do you know this one?
BC: Oh, I do indeed, it's a lovely theme.
And they told me pa-rum-pum-pum-pum
A newborn king to see pa-rum-pum-pum-pum
Our finest gifts we bring pa-rum-pum-pum-pum
Rum-pum-pum-pum-pum, rum-pum-pum-pum-pum
Peace on Earth, can it be
Years from now, perhaps we'll see
See the day of glory
See the day when men of good will
Live in peace, live in peace again
Peace on Earth, can it be
Every child must be made aware
Every child must be made to care
Care enough for his fellow man
To give all the love that he can
I pray my wish will come true
For my child and your child too
He'll see the day of glory
See the day when men of good will
Live in peace, live in peace again
Peace on Earth, can it be
Can it be
BC: It's a pretty theme, isn't it?
Posted by Ruy Goiaba at 10:31 AM | Comments (6)
dezembro 22, 2005
Para lembrar o tarado-de-pijama
"Ah, os nossos libertários! Bem os conheço. (...) Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura."
(Nelson Rodrigues em "Os Abnegados", texto de 22 de junho de 1968 recolhido na coletânea "A Cabra Vadia". Nesta quinta, faz 25 anos e dois dias que o tarado-de-pijama morreu. Queria ser como a Nariz Gelado nisso de celebrar datas exatas, mas não consigo -a goiabice não permite.)
Posted by Ruy Goiaba at 02:32 PM | Comments (2)
dezembro 21, 2005
Pára Pedro Pedro Páramo
O povo boliviano é feliz, sabe onde tem o nariz. Não conheço a biografia do Evo, mas vou achar legal se, como diz meu amigo César Miranda, a primeira-dama se chamar Adona: a Bolívia será um Éden com folhas de coca no lugar daquelas de parreira, tão caretas. Na verdade, quem olha para os personagens da polititica latino-americana tem a impressão de que são quase todos extraviados de algum livro ruim do García Márquez. Suponho que, hoje, o tal "realismo mágico" esteja em baixa na ficção e se manifeste nos cargos eletivos, princípio igualmente válido para a Botocúndia: alguém já disse que, se você reprime a chanchada, ela retorna em forma de política. O referido é verdade e dou fé. (Where have you gone, Zé Trindade? A nation turns its lonely eyes to you, woo-woo-woo.)
Posted by Ruy Goiaba at 12:02 AM | Comments (6)
dezembro 20, 2005
Pequeno coquetel jornalístico
"Ronaldinho é bi. E daí?"
(Duas doses de Ora, Veja e algumas gotas de Trolha, shaken and stirred.)
Posted by Ruy Goiaba at 12:15 AM | Comments (6)
dezembro 19, 2005
Securitize meus recebíveis, baby
Economês é coisa de gentes pervertidas: Conceição Tavares, Delfim, Mailson e sua careca hiperinflacionária não passam de expressões diversas da mesma parafilia hardcore. Embora concorde com o que o Dante diz sobre "Taras Bulba", acho "swap cambial reverso" muito mais kinky; imaginem os dotes acrobáticos que isso requer dos praticantes. Diálogo possível de um casal-de-classe-mérdia: "Benhê, a gente precisava apimentar um pouquinho o nosso séquiço, fazer amor mais gostosinho." "Quer fazer uma coisinha diferente, morzinho?" "Quero." "Então traz o livro pra cá. [Olha o índice, folheia, pára na página 548 ou algo assim.] Achei. Vamos experimentar esse swap cambial reverso?" "Ah, seu safadinho." Depois, câimbras, deslocamentos de omoplata, torções de tornozelo. No pain, no gain: saber tocar a flauta e fazer o dólar subir é privilégio de poucos. (Mas dizem que securitizar os recebíveis é uma loucuuura.)
Bonus track: uma musiquinha para vocês. Parceria Goiaba/Mautner.
Lá em Brasília, todo mundo sabe
É mandinga de Delfim
Saber tocar a flaaauta
E fazer o dólar subim
Posted by Ruy Goiaba at 11:38 AM | Comments (4)
dezembro 18, 2005
Uma pausa para a manifestação do alter ego

(Ruy Goiaba, na verdade, torce pela Portuguesa. Mas, se há um dia para deixar o personagem e seu time de lado, é hoje. Tri mundial, quem diria.)
Posted by Ruy Goiaba at 07:28 PM | Comments (3)
dezembro 16, 2005
Metafísica da chanchada
Oscarito e Grande Otelo, patronos do pensamento filosófico do Bananão, ensinam: este mundo é um pandeiro, e quem fornece o couro somos nós.
(Aaaah, Rooomeeeu!)
Posted by Ruy Goiaba at 01:37 AM | Comments (2)
dezembro 09, 2005
Arte, tô fora
Os entendidos explicam da maneira mais inequívoca possível: arte é uma bicha pelada balançando seu saco peludo. Abro o caderno de cultura -idéia que entendo no sentido mais urinário possível, como em "cultura de bactérias"- e vejo que a reportagem sobre um curador é ilustrada por uma, ahn, instalação. A coisa consiste num vídeo de um sujeito pelado, de mãos dadas com outros, ou outras, que estão fora do quadro. Dois anos atrás, num instante de distração fatal do superego (que hoje, quando se lembra do episódio, canta Novos Baianos -"besta é tu, besta é tu"- no meu ouvido interno), fui ver aquela exposição de peças da Tate Gallery em São Paulo, "A Bigger Splash". Espio dentro de uma sala, mesma coisa: instalação-com-vídeo-de-viado-sem-roupa, desta vez dançando, salvo engano, ao som do "Adagio for Strings" de Samuel Barber (está certo que o barbeiro era devoto de Afrodite Urânia, mas não merecia uma sacanagem dessas). Um textículo explicava aos incautos que o vídeo fora gravado ao som de dance music, depois substituída pela peça crássica. Uau. Concluo que certos autistas plastas (expressão de uma amiga, aliás artista plástica) são vítimas de um tipo peculiar de dislexia, que apaga a diferença entre genial e genital. Arte, tô fora -pelo menos enquanto Courbet não ressuscitar.
Posted by Ruy Goiaba at 05:22 PM | Comments (14)
dezembro 07, 2005
Pequena antologia goiabal
George Orwell (1903-1950)
"It is Sunday afternoon, preferably before the war. The wife is already asleep in the armchair, and the children have been sent out for a nice long walk. You put your feet up on the sofa, settle your spectacles on your nose, and open the News of the World. Roast beef and Yorkshire, or roast pork and apple sauce, followed up by suet pudding and driven home, as it were, by a cup of mahogany-brown tea, have put you in just the right mood. Your pipe is drawing sweetly, the sofa cushions are soft underneath you, the fire is well alight, the air is warm and stagnant. In these blissful circumstances, what is it that you want to read about? Naturally, about a murder."
(Início de "Decline of the English Murder", em "Essays", Penguin Classics. Gosto mais do Orwell como ensaísta do que como romancista: textos como "Inside the Whale" -leiam, leiam- fazem parte da minha biblioteca básica.)
Posted by Ruy Goiaba at 01:02 PM | Comments (6)
dezembro 06, 2005
Welcome to the Hotel California
Rodrigo de Lemos, o homem que conseguiu quatro vagas na universidade e outras tantas na garagem do condomínio graças ao sistema de cotas, passa a hospedar seu chá das cinco no Apostos. Companheiro, bem-vindo a bordo. You can check out any time you like, but you can never leave.
Posted by Ruy Goiaba at 05:09 PM | Comments (3)
dezembro 05, 2005
Pigritia vinces
A história da literatura no mundo é a história de sua progressiva dorivalcaymmização. Tudo começou quando algum poeta épico olhou para os mais de 100 mil versos do "Mahabharata" e disse "aaahhh, não! Eu é que não vou escrever uma trolha desse tamanho. Co'os diabos [os poetas épicos viviam usando essas expressões antiquadas], ninguém vai ler mesmo. Parando nuns 80 mil versos já está mais do que bom". E assim caminhou a humanidade -ou, pelo menos, sua porção alfabetizada, essa minoria pedante e barulhenta- até que a evolução nos conduziu a Oswald de Andrade (amor/humor), aos poetas concretinos (VIVA/VAIA) e, no tênue limite entre a literatura e a biologia, à proliferação dos microcontos. Claro, houve desvios, como Tolstói e Thomas Pynchon, mas nada que altere o curso inexorável dos acontecimentos: pouco a pouco, as pessoas se dão conta de que pensar dá trabalho, ler cansa a vista, escrever resulta em tendinite. Desagradável. Muito mais gostoso é ficar sob os coqueiros que dão coco, onde amarramos nossas redes. Amanhã a gente faz -ou não.
Posted by Ruy Goiaba at 01:46 PM | Comments (9)
dezembro 02, 2005
Conversas na barbearia
Não falha: no derradeiro sábado de todo mês, tio Gordo e tio Ari, que são primos, vão à barbearia depois do jogo de bocha, para dar uma aparada nos cabelos tão grisalhos quanto escassos. O barbeiro, que já ganhou concursos de sósia do Itamar Franco, diverte-se com as discussões entre os dois, às quais serve de mediador. Na última que testemunhei, tio Gordo, que esperava sua vez lendo um exemplar desbeiçado da "Caras", contava que proibira o neto adolescente de ler Rimbaud. "Não deixei mesmo. Façavor. E se o moleque gostar? Vai sair por aí enchendo a cara de absinto e dando a bunda. Mau exemplo. Não quero isso pro meu neto." Na cadeira do barbeiro, tio Ari respondeu: "Mas só você mesmo, Gordo. Isso é subestimar a inteligência do menino. Você acha que, se ele for ver 'Édipo Rei', vai querer transar com a mãe e depois furar os olhos? Claro que não. Vai ficar aterrorizado, sentir pena do Édipo, essas coisas. Deixa ele ler, pô". Fez uma breve pausa e emendou: "Quem gosta de freqüentar aquela 'academia', aliás, não tem essa moral toda pra falar em mau exemplo". O Itamar riu -depois me explicaria que "academia" era o codinome de uma sauna. Tio Gordo enfiou a cara na "Caras" e preferiu não responder.
Posted by Ruy Goiaba at 01:16 AM | Comments (2)