« Fatos e versões | Main | Pigritia vinces »

Conversas na barbearia

Não falha: no derradeiro sábado de todo mês, tio Gordo e tio Ari, que são primos, vão à barbearia depois do jogo de bocha, para dar uma aparada nos cabelos tão grisalhos quanto escassos. O barbeiro, que já ganhou concursos de sósia do Itamar Franco, diverte-se com as discussões entre os dois, às quais serve de mediador. Na última que testemunhei, tio Gordo, que esperava sua vez lendo um exemplar desbeiçado da "Caras", contava que proibira o neto adolescente de ler Rimbaud. "Não deixei mesmo. Façavor. E se o moleque gostar? Vai sair por aí enchendo a cara de absinto e dando a bunda. Mau exemplo. Não quero isso pro meu neto." Na cadeira do barbeiro, tio Ari respondeu: "Mas só você mesmo, Gordo. Isso é subestimar a inteligência do menino. Você acha que, se ele for ver 'Édipo Rei', vai querer transar com a mãe e depois furar os olhos? Claro que não. Vai ficar aterrorizado, sentir pena do Édipo, essas coisas. Deixa ele ler, pô". Fez uma breve pausa e emendou: "Quem gosta de freqüentar aquela 'academia', aliás, não tem essa moral toda pra falar em mau exemplo". O Itamar riu -depois me explicaria que "academia" era o codinome de uma sauna. Tio Gordo enfiou a cara na "Caras" e preferiu não responder.

Comments

Ruy: o tio Ari é magro?

(N. do E.: É, sim, Isnard. É um ser peripatético, adora caminhar enquanto fala -e fala muito. :) Abraços.)

Você anda lendo muito o a esse esse.

(N. do E.: Pelo contrário, jota ene. E infelizmente -acrescento-, já que o Alexandre quase não tem escrito nos últimos tempos. Saudações.)

Post a comment

(If you haven't left a comment here before, you may need to be approved by the site owner before your comment will appear. Until then, it won't appear on the entry. Thanks for waiting.)