Pigritia vinces
A história da literatura no mundo é a história de sua progressiva dorivalcaymmização. Tudo começou quando algum poeta épico olhou para os mais de 100 mil versos do "Mahabharata" e disse "aaahhh, não! Eu é que não vou escrever uma trolha desse tamanho. Co'os diabos [os poetas épicos viviam usando essas expressões antiquadas], ninguém vai ler mesmo. Parando nuns 80 mil versos já está mais do que bom". E assim caminhou a humanidade -ou, pelo menos, sua porção alfabetizada, essa minoria pedante e barulhenta- até que a evolução nos conduziu a Oswald de Andrade (amor/humor), aos poetas concretinos (VIVA/VAIA) e, no tênue limite entre a literatura e a biologia, à proliferação dos microcontos. Claro, houve desvios, como Tolstói e Thomas Pynchon, mas nada que altere o curso inexorável dos acontecimentos: pouco a pouco, as pessoas se dão conta de que pensar dá trabalho, ler cansa a vista, escrever resulta em tendinite. Desagradável. Muito mais gostoso é ficar sob os coqueiros que dão coco, onde amarramos nossas redes. Amanhã a gente faz -ou não.
Comments
Ary Barroso ria muito quando vinham lhe gozar
sobre o coqueiro que dá côco.
A causa desse fenômeno é a imprensa moderna.
Por ex.: A Divina Comédia , à medida que era prensada ia sendo publicada , ao término , depois de 3 anos , os letrados nem percebiam o tamanho do que leram.
E não havia muito mais coisas pra ler.
Posted by: Artur | dezembro 14, 2005 05:36 AM
Microcontos são realmente enjoados. Eu os prefiro mais robustos, coisas que evoquem minha personalidade rotunda. Entretanto, o mercado demanda a diminuição do texto. O papel é caro (ecologistas que o digam), a tinta também, e quanto maiores os livros, mais tempo as pessoas levam para ler e mais tempo levam para comprar outros livros. Não pode! Um livro não pode durar mais que um sabonete, para o bem do capitalismo. Veja, até o Réripoter mais recente é menor que o anterior.
Posted by: MarcosVP | dezembro 7, 2005 11:53 AM
Não sei se a gente faz -ou não- amanhã.
Gente que se chama Ruy Goiaba só faz quando quer.
E, antes que alguém se assanhe, já aviso que estou falando de postar.
(N. do E.: Melhor do que fazer quando os outros querem, né, Nariz? I'm free to do what I want any old time. :) Beijos.)
Posted by: Nariz Gelado | dezembro 6, 2005 05:38 PM
Injustiça foi não terem dado o Nobel de Literatura para Tião Macalé. Mais do que micro-conto, foi o grande autor de uma micro-obra:
"Ô nêga difícil! Tchaaaan!"
Posted by: Roger Prado | dezembro 6, 2005 04:49 PM
nada melhor do que os desvios...que o diga Tolstói
Posted by: gugala | dezembro 6, 2005 02:14 PM
É um conto quântico, diria o intelectual bahiano - ou não diria (no silente sono da rede)
Posted by: F. Arranhaponte | dezembro 6, 2005 12:56 AM
Gostei do microconto sobre cocos, coqueiros e redes. Deus do Céu, que imensa preguiça desce sobre nossas almas fúteis. Zzzzzzzzzzzzzzz
(N. do E.: F., na verdade o meu microconto preferido é o "amanhã a gente faz -ou não". Puro molejo dialético. :) Abraços.)
Posted by: F. Arranhaponte | dezembro 6, 2005 12:03 AM
Vai haver uma oficina aqui com um escritor que participou daquela coletânea os menores contos do século. Vou lá perguntar para o sujeito: "Sério, microcontos?".
Posted by: ludovico | dezembro 5, 2005 09:14 PM
Poetas concretinos é muito boa. (ha, ha, ha...)
Posted by: Carlos Eduardo | dezembro 5, 2005 06:46 PM