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Essas elites não tomam jeito mesmo

Em artigo na Trolha, Walter Salles se indiguina -acento no "gui"- com as elites brasileiras, das quais, como sabemos, ele nunca fez parte. Primeiro, esbraveja com razão contra a invasão de praias em áreas de proteção ambiental por helicópteros cheios desses seres asquerosos e poluentes que são personagens da "Caras". Alguns parágrafos depois, cita Lester Thurow ("o que falta na América Latina é elite. O que existe é oligarquia. As oligarquias desfrutam ou herdam o poder, mas não entendem as responsabilidades públicas inerentes a ele"). Cada vez mais assustado comigo mesmo, vou concordando, até que ele emenda: "Ou seja, querem os privilégios, mas não os ônus. Querem a gravata da Gucci, mas não os impostos de importação, que se convertem em saúde, educação etc.".

Nananina, Waltinho. Você sabe, não sabe? No Bananão, esses impostos ou quaisquer outros não "se convertem em saúde e educação". Vão para o esfíncter anal de políticos vagabundos e empresários amamentados pelo Estado -mas sempre sobra um pouquinho para os cineastas, filhos de banqueiros ou não. Claro, é bom que sobre: se você tivesse parentes morrendo num corredor de hospital público, não ficaria feliz em saber que o dinheiro dos tributos é destinado a coisas mais bonitas e importantes, como aquele filme sobre o Chega-a-Vara? Então. É algo transcendental: a gente morre, mas os filmes -inclusive os muito, muito ruins- são eternos. Pobre a-do-ra saber que seu sofrimento é pretexto para a Grande Arte.

(Se eu não fosse um pé-rapado descontado na fonte, iria lá no seu Gucci e perguntaria qual era a gravata com imposto sonegado, para ter o prazer de comprar e não dar nem um tostão aos cineastazinhos da Botocúndia. Sei, porém, que não adiantaria. Seguirei financiando bosta em celulóide, mesmo com um guarda-roupa todo comprado na Camisaria Fascynios.)

Comments

boa Trabalho Ruy você mando muito bem nesse assunto....

As pessoas que vaiaram Walter Salles não me são aceitas no meu coração.

(N. do E.: Mas em outras regiões podem ser, né, Cae? :) Um abraço por trás, meu rei.)

Muito bom, Ruy. Como alguém consegue dizer que os impostos vão para a saúde, assim, com essa simplicidade? Mas parei de ler no "Em Roma, como os americanos". ;>)

(N. do E.: Fizeste bem, Alexandre. Grande abraço.)

Eu já fui escravo dos Salles... Não era ruim, não. Hoje eu sou da Rosinha. Pelo menos hoje eu finjo que trabalho. Lá no UNIBANCO as pregas viviam ardendo... e o lombo também.

Tá sensacional isso, Ruy.

(N. do E.: Thank you so much, Fal.)

Good job too!

E ainda cobra ingresso no cinema.

Good job.

(N. do E.: Thanks, Freddy.)

Está inteiramente errado o dado de que "70% do dinheiro arrecadado em impostos no Brasil vão para os bancos daqui para 'pagar' a dívida pública". O custo da dívida pública é de 20%/25% dos impostos, na pior das hipóteses.
O cu ("Um dos indicadores vistos prioritariamente pelas agências... blá blá blá... continua em 75% blá blá blá") nada tem a ver com as calças (75% dos impostos para pagar dívida).
70% a 80% dos impostos são torrados mesmo na máquina pública, incluindo aposentadorias e transferências. Gastamos nisto o dobro, em relação ao PIB, do que Chile e Coréia, com resultados, medidos por indicadores socioeconômicos, estupidamente piores.

(N. do E.: Grande Arranhaponte -nada como um especialista em economia para explicar isso. E minha tese original se mostra cada vez mais certa. :) Abraços.)

eu li o texto e fiquei intrigada
como um sujeito da elite financeira
escreve uma coisa dessas ?

só porque é artista , tá imunizado ?

toda vez que entro no Unibanco, da qual sou
correntista, lembro do
Waltinho...
êta país de bosta esse !

Ruy,
vc está certo mas errado: que não se investe em educação no Brasil é só assistir o programa da Silvia Popovic ..
Mas que a grana que paga os juros vai para cineastas ou que tais vc jogou a água e a vitrola para fora da banheira com o PT o FHC e a oligarquia bancária juntos.
Ab

(N. do E.: Não joguei nada fora da banheira nem fora da bacia, Toniko. :) Nem disse que "a grana que paga os juros vai para os cineastas". O trajeto é outro, acompanhe: o Estado gasta muito mais do que arrecada. Tenta tapar esse buraco com impostos e dinheiro emprestado dos bancos a juros altíssimos. Para pagar esses juros, põe a pata em cima de nós cobrando mais impostos -que deveriam ser para saúde-e-educação, mas vão para o rabo de políticos, empresários, banqueiros etc. E o dinheiro desses impostos que pagamos ao governo TAMBÉM vai para o bolsinho dos cineastas. Captou? Mas, arre, que esse assunto já ficou muitíssimo chato; acho que meu próximo post vai ser sobre a Aldine Müller. Abraços.)

Ruy,
desculpe eu errei: não é 70% é 75%. É maior ainda graças a v.ex. o presidente do Bank of Boston do Banco Central do Brasil sr. dr. Henrique Meirelles. Veja a prova:
InvestNews

SÃO PAULO, 27 de setembro de 2005 - O superávit primário (receitas menos despesas sem contabilizar gastos com juros) deveria ser de, no mínimo, 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para que o governo conseguisse consolidar a tendência de redução do percentual da dívida pública. A avaliação foi feita hoje pelo diretor-executivo da Fitch Ratings, Rafael Guedes.
Um dos indicadores vistos prioritariamente pelas agências de classificação de risco é a relação entre da dívida pública bruta e o PIB que, no caso brasileiro, continua em 75%, enquanto a mediana dos países com classificação soberana B é de 55% do PIB, e BB aproximadamente 50% do Produto.

(N. do E.: Toniko, OK, mas a culpa é só do Meirelles? Não é o Estado -hoje os petelhos, ontem a tucanalha, antes os milicos etc.- que gasta MUITO mais do que poderia? É evidente que os juros altíssimos põem a dívida pública lá na PQP -mas ela existe, é muito grande (seria ainda que os juros fossem baixos) e toda a grana que o governo toma dos bancos não "vira" saúde nem educação, mas pode ir pro bolso dos cineastas. Meu ponto, em essência, se mantém. Abraços.)

Ruy,
li os dois artigos: o seu e do WS.
Vc tem razão, mas ele tbém tem. São coisas desse país que canta e é feliz? Mas vc comeu uma bola gigante, diria mais: gigantesca!
70% do dinheiro arrecadado em impostos no Brasil vão para os bancos daqui para "pagar" a dívida pública. Sendo assim, prefiro que vá para uns caras que fazem cinema do que para banqueiros.
Já antevejo que vc vai dizer que o WS é as duas coisas ... mas aí segura as calças para não cair!
Tk

(N. do E.: Pois é, Toniko, você antecipou a minha resposta: WS ganha dos dois jeitos. :) Não tenho certeza sobre esse percentual que você menciona -vou checar. Mas o fato de os banqueiros também fazerem parte da lista da infâmia não livra a cara dos cineastas, né? Abraços.)

For Guava's sake! Falaste tudo, Ruy, o "cineasta preibói socialista" é mais uma das inutilidades exóticas que pululam na Botocúndia, sairia mais em conta para o país erradicar essa praga do que o mosquito da dengue!

Excelente, comendador. Subscrevo integralmente.

Só faltou chamar o cineasta de "Waltinho". Ninguém leva nem meio a sério um sujeito chamado "Waltinho". ;-)

(N. do E.: Faltou não, Uncle Filthy. Eu chamei, veja lá -exatamente por isso. :) Lima, obrigado também. Abraços aos dois.)

Boa, Ruy. Eu já cansei, literalmente, de cair de pau nas declarações de Walteza, sobretudo aquelas que deu para a Trip. Nunca é demais enquadrar o cara.
Se eu abrir um clube, te chamo para sócio.

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