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The last waltz

Durou pouco a minha experiência como colunista de revista de música -a Abril decidiu suspender a "Bizz" (ou, como o mundinho corporativo gosta de dizer, "descontinuar"). Ela não será mais uma revista mensal; a última edição com essa periodicidade saiu no final de junho. Não sei se a editora tem planos de aproveitar o título de outra forma. Com isso, acaba minha colaboração para a seção "Pense Conosco" -e você, que leu meus textos lá, vai ter de se virar para pensar sozinho agora. Não é tão difícil, acredite.

Foi breve, mas bem legal. Agradeço especialmente ao Ricardo Alexandre, por convidar um goiaba para escrever, e ao Luciano Marsiglia, com quem tratei mais diretamente nos últimos meses. E aproveito para colocar aqui meu último texto escrito para a "Bizz", não aproveitado. Hope you enjoy it.

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Roquenrol de andador

Algumas das melhores frases de Tom Jobim eram farpas dirigidas aos roqueiros. Coisas como “tenho esperança de que o roque vai evoluir e descobrir o quarto acorde, porque fazer música só com três deve ser muito difícil, né?”. Nos anos 90, mr. Joe Bim também disse: “O roque já tem 40 anos. É música do tempo do meu avô”. Hoje, é forçoso constatar que ele estava certo: aos 50 e poucos anos, o gênero nunca foi tão música-de-avô. Não só por ser plenamente apreciável por aquele seu tio-avô barrigudo que é fã dos Stones -e não vá me dizer que você se acha muito diferente só porque prefere os White Stripes. Nem apenas porque sessentões saracoteantes como Mick Jagger continuam compondo, gravando, fazendo shows. Mas sobretudo porque as circunstâncias da velhice, de reumatismo e artrite à proximidade da morte, refletem-se no trabalho desses dinossauros que sobreviveram a glaciações, overdoses, quedas do alto de coqueiros. Os últimos três discos de Bob Dylan são basicamente sobre isso (não sobre artrite -você entendeu), e o mais recente leva o nome lindamente arcaico de “Modern Times”. Vale o mesmo para o álbum recém-lançado por Paul McCartney, “Memory Almost Full”. E quase todo mundo que passeia pelo YouTube já viu o vídeo dos Zimmers (“andadores”), velhinhos de mais de 90 anos que regravaram “My Generation”, e pensou o mesmo: logo Pete Townshend e Roger Daltrey poderão juntar-se a eles.

Precisamos mesmo de roqueiros se queixando de dor no nervo ciático ou cantando que não está escuro ainda, mas está quase? Bem, não sei dizer se são necessários, mas certamente são bem-vindos. Por mais que o roquenrol viva há cinco décadas do fetiche do novo e sua mitologia esteja cheia de jovens cadáveres ilustres -"die young, stay pretty"-, a velhice é uma parte importante da experiência humana, cuja abordagem, em mãos competentes, só enriquece o gênero. Pensem em quão mais pobres seríamos sem um Leonard Cohen, que começou carreira musical depois dos 30 e hoje, aos quase 73, afirma que as mulheres lhe têm sido “exceptionally kind”, considerando sua idade. Ou sem um Ray Davies, que gravou seu primeiro disco solo aos 62, mas compõe como um velho rabugento desde os 21, pelo menos (já em 1965 os Kinks perguntavam “Where Have All the Good Times Gone?”, sem resposta ainda hoje).

A necessária contrapartida dessa velhice roqueira -como o outro pólo da mesma pilha- é a já mencionada obsessão pelo “novo”, com quantas aspas vocês quiserem. E aqui vale a pena citar um outro velho, Theodor W. Adorno (1903-1969), em seu ensaio “Moda Intemporal”, de 1953: "Paralelamente à estandardização há uma pseudo-individualização. (...) Enquanto promete incessantemente ao ouvinte algo de especial, instigando sua atenção com algo que deve escapar à monotonia, [a música] não deve jamais ultrapassar limites bem definidos (...); deve ser sempre nova e sempre a mesma. Por isso os desvios são tão estandardizados quanto os standards, sendo recolhidos no próprio momento em que são introduzidos: o roque, como toda a indústria cultural, satisfaz os desejos apenas para, ao mesmo tempo, frustrá-los".

Confesso que trapaceei trocando “jazz” por “roque” no trecho acima, mas, de resto, está exatamente como o filósofo escreveu. Sim, Teddy Adorno era um alemão sem jogo de cintura, charme, suingue e veneno, e boa parte do que ele dizia sobre a malévola indústria cultural é no mínimo contestável. Mas quem negará que há verdade nesse parágrafo? Basta uma olhadela nas capas da “NME”, sempre novas e sempre as mesmas. E não conheço melhor descrição da “missão” desses veículos produtores de hype: satisfazer desejos e frustrá-los, sucessivamente. Ou dos indies, tão vítimas da pseudo-individualização como nós. De todo modo, é da natureza do roque responder a esse tipo de crítica como aquelas estudantes que interromperam a palestra do velhinho frankfurtiano, no fim dos anos 60, mostrando os peitinhos. E eu sou a favor, mesmo que hoje os peitinhos do roquenrol estejam meio parecidos com os da Dercy Gonçalves.

Comments

É fácil ser kind com Cohen ;-)

Bjo

(N. do E.: Ei, que visita ilustre! Sim, admito que é fácil ser kind com o Field Commander. :) Beijão.)

Fumei este teu texto "palha", ô "maluco", ok?!

(N. do E.: Cara, se você não é analfabeto, é MUITO burro. Sugestão caridosa: jogue fora o seu cérebro e coloque qualquer outra coisa no lugar, que a sociedade sai ganhando. Só depois disso volte a comentar aqui, OK? Boa sorte. :))

a velha e indecente tática de dizer que se acabou o que ainda há. dizem "nós os vencemos", mas a luta continua... procure o rock'n'roll em outros lugares, não nestes óbvios que citaste.

(N. do E.: Hã? Quem disse que acabou o quê, Daniel? Você sabe ler? Realmente leu meu texto? Se sim, o que fumou antes? Cada maluco que aparece por aqui, viu -isso, sim, chega a ser indecente. :))

Trocadilhos, Kinks, Adorno... eis um texto de Ruy Goiaba! Curti. Da menção à queda do coqueiro aos peitos da Dercy.

Vale lembrar que o Adorno foi o primeiro indie, daqueles que ficam com o pé apoiado na parede da pista de dança, enquanto olha as meninas que jamais olharão para um frustrado como ele. Só porque ele não tem banda.

(N. do E.: Hahaha. Que coisa boa vê-la por aqui, moça. Besos.)

Texto ótimo, Ruy. Depois tenho umas duas ou três palavrinhas para escrever a respeito. Abração.

fala goiaba, te mandei dois emails, vc recebeu?

(N. do E.: Fala, Alex. Por incrível que pareça, recebi os dois ao mesmo tempo, só hoje -respondo assim que puder. Um abraço.)

Gude, olde fela. Vewrie gude.:-)

o final, coup de maître!

Uma lástima, caro Ruy. Mas muito bom o texto; sempre que o Neil Young canta "rock and roll can never die", me parece que ele está citando a Bíblia.

É por essas e outras que Adorno está entre minhas principais referências musicais, junto com Mário de Andrade e o ranzinza Gargamel Tinhorão. Ótimo ensaio, goiabíssimo Ruy. Não deixe de atualizar aqui (bendito rss que dedura as boas atualizações nesse mundaréu de blogs que valem a leitura, como o seu). Abraços!

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