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Arte e ciência de batizar personagens

Cada vez mais me convenço de que dar nome a um personagem de ficção exige um talento raro, algo mais ou menos equivalente a acertar o martelo bem na cabeça de um prego minúsculo numa sala às escuras. Grandes escritores nem sempre têm esse talento -se a gente pensar bem, por exemplo, "Félicité" é uma escolha meio óbvia para o nome da protagonista de "Um Coração Simples", do Flaubert (bastava pensar em algo que fosse o exato oposto da vida da personagem -et voilà). Por sua vez, o Stephen Dedalus do Joyce e o Humbert Humbert do Nabokov são escolhas inspiradas. Outros autores não conseguem sustentar ao longo de um livro inteiro o alto nível de inspiração do batismo dos personagens: as coisas que li do Lima Barreto sempre me dão a impressão de que, num determinado ponto, ele se desinteressava da história, terminava de qualquer jeito e ia fazer outra coisa mais interessante, talvez beber. Mas "Policarpo Quaresma", o nome, é excelente -o caráter patético transparece antes mesmo que o personagem apareça no romance. Basta mencioná-lo.

Fora do mundo etéreo da alta literatura também há excelentes exemplos. Citei Aguinaldo Silva, o novelista acaju, no meu post de ontem. Não acompanho novelas, misturo umas com as outras e certos diálogos fazem meus ouvidos sangrarem, como acontece com o Alexandre. Mas quem há de negar que batizar um personagem que é ex-jogador de futebol e tem a cara do Paulo Gorgulho como Ataliba Timbó é um toque de gênio? Vale o mesmo para o nome completo do Sr. Barriga do seriado "Chaves", que é Zenón Barriga y Pesado -percebam como "Zenón", ainda mais com esse acento do espanhol, é perfeito para caracterizar uma pessoa rotunda.

Mas, para mim, o exemplo canônico da coisa é uma tirinha do Arnaldo Branco que não consigo mais achar na internet, em que ele batizou um artista plástico "transgressor" de Elmo Cariacica. Acertar o prego no escuro é isso, senhores. "Dez! Nota dez!", como gritaria o Carlos Imperial.

Comments

Não lembro do Imperial gritando "nota 10". Na minha memória a melhor e até hoje insuperável
"nota 10" era a da Márcia de Windsor.

(N. do E. Rapaz, isso foi o Imperial lendo as notas dos jurados numa apuração de Carnaval do Rio. Ele simplesmente berrava "DEZ! NOTA DEZ!" quando alguma escola tirava a nota máxima -muito bom. :) Um abraço.)

Favoritei esse post só pra me lembrar de voltar a escrever meus livros - é que bolar nome de personagem (e seu respectivo histórico) é a parte mais legal.

(Registro aqui, porque me escapou na hora de escrever o post, que o Tennessee Williams também era um ótimo "batizador" de personagens -Blanche DuBois, Chance Wayne, Alexandra Del Lago, Big Daddy Pollitt etc.)

Muito bom, mas acho que ninguém superou Cervantes.
Dom Quixote é perfeito; Sancho Pança, então. E tem ainda Dulcinéia. E Rocinante (nenhum cavalo poderia ter outro nome, aliás, é melhor que o nome cavalo).

(N. do E.: Sem dúvida, as escolhas do Cervantes foram excelentes. Abraço!)

Dearest, embora prego pequeno e martelo certeiro gerem esses nomes geniais, sempre penso se é a cachaça que mistura as letras, as sílabas, as referências da mitologia grega, os heróis da guerra do Vietnã e por fim, Goethe, na mente de alguns pais que "produzem" alguns personagens da vida pública brasileira, como o Protógenes Queiroz, o Tranvavan Feitosa e o juiz Fausto de Sanctis...
Ah! E não se esqueça na sua lista, a cachorra Baleia do Graciliano Ramos e a Dona Redonda da novela Saramandaia

(N. do E.: Ótimas lembranças, querida. Que coisa boa ver você comentando por aqui. :) Um beijão.)

Acertar o prego no escuro foi clicar no link do teu blog em uma lista imeeensa lá no rosa!

A-D-O-R-E-I!!

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Hugs.

(N. do E.: Opa, que bom que você gostou. :) Volte sempre. Hugs!)

É, desde priscas eras da faculdade que o Arnaldo é bastante criativo. Recomendo um boteco lá perto da Uerj, nem sei se existe mais, chamado Jaleco. Foi onde o Sr. Branco (e todo o restante não-over-nerd) da faculdade estudou 99% do tempo; hahaha.

Tem um texto muito bom do José J. Veiga sobre batismo de personagens. Você o conhece?

Bezzos, querido.

(N. do E.: 'Cê foi colega do Arnie White? Bacana. Imagino que o Jaleco estivesse para a Uerj como o Rei das Batidas estava para a USP. :) Não conheço esse texto do JJV -me manda o linque, se houver? Beijo!)

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