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Pequena antologia goiabal

Joseph Brodsky (1940-1996)

Também eu aguardei na colunata
da Bolsa, outrora, o fim da chuva fria.
Julgava-a dom de Deus. E era sensata
minha suposição. Pois algum dia
também eu fui feliz. Fui prisioneiro
dos anjos. Combatia monstro horrendo.
Feito Jacó, fitava sorrateiro
uma beldade -rápido- descendo
a escada principal.
Aonde tudo
se foi. Sumiu. Olho janela afora:
o "aonde" acima, eu o escrevi, contudo,
sem ponto de interrogação. Agora
é setembro. Um trovão distante invade
meu ouvido. Eis um horto. Pêras pensas,
cheias de seiva nas ramagens densas,
parecem signos de virilidade.
E o ouvido admite, como gente avara
parentes na cozinha, um som assíduo
de chuva que, na mente, sem chegar a
música ainda, é mais do que ruído.

("Quase uma Elegia", 1968. A tradução é de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher.)

Comments

Não, Ruy. Ele saiu mesmo. Mandei e-mail para a Folha e responderam que estão buscando alguém para o lugar dele. Sugeri o Hugo Estenssoro, mas aí seria demais...

(N. do E.: Hugo Estenssoro seria uma ótima aquisição. Abraços.)

"... um som assíduo
de chuva que, na mente, sem chegar a
música ainda, é mais do que ruído."

Coisa mais linda isso. Adorei!

Bezzos.

(N. do E.: Que bom que você gostou, querida. Grande beijo.)

Aproveitando o ensejo: Caramba, ninguém ligou para a saída de Nelson Ascher da Folha.
Tempos ruins, muito ruins...

(N. do E.: Ele estava em férias, Ângelo. Pode ser que não tenha voltado a escrever depois delas -se foi isso mesmo, é uma perda. Um abraço.)

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